Epstein deu a dica: direita roubou a eleição de 2018 (Parte 2)

Epstein deu a dica: direita roubou a eleição de 2018 (Parte 2)

Tudo no sigilo

A reportagem da revista Carta Capital que publicamos na Parte 1 terminava com esta cobrança: A atuação da Cambridge Analytica na eleição americana de 2016 tem sido investigada nos EUA. E no Brasil? Haverá alguma investigação das pistas sobre o uso de métodos da CA pela campanha de Jair Bolsonaro?

Pois bem, a resposta é sim.

Um inquérito foi instaurado em 2018 tão logo explodiu a nível mundial o chamado Escândalo (dos vazamentos de dados) do Facebook envolvendo a empresa direitista de publicidade e consultoria Cambridge Analytica (CA).

A instauração foi do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), com o propósito de investigar a atuação da CA no Brasil e o uso indevido de dados de brasileiros pelo Facebook para ajudar fraudulentamente na eleição de Bolsonaro.

Porém o processo foi colocado sob sigilo em abril de 2018 e assim continua até hoje. Portanto ninguém sabe ainda, depois de 8 anos longos anos, tudo o que foi descoberto sobre os benefícios ilícitos fornecidos pela CA/Facebook/Steve Bannon/Epstein à vitória de Bolsonaro.

Abriu o jogo e está em perigo?

A decisão de sigilo foi tomada pelo MPDFT “para preservar a integridade física de envolvidos”, informou a instituição à mídia monopolista. Preservar principalmente o então representante da CA no Brasil na época dos fatos, André Torretta. Embora em público o baiano Torreta negue tal necessidade de proteção, comenta-se nos bastidores jornalísticos e políticos que ele corre perigo sim, pois alas do fascismo bolsonarista o enxergariam como um “arquivo” que precisaria ser queimado.

Nos bastidores se diz que ele foi honesto em seu depoimento ao Ministério Público e relatou todo o esquema usado para dar a vitória eleitoral a Bolsonaro.

Mera coincidência ou risco real?

Teria sido apenas uma coincidência o Ministério Público esconder em sigilo o depoimento/relato de Torretta exatamente na mesma época, abril de 2018, em que o calado Facebook finalmente admitiu o sujo repasse à CA de dados roubados de 443.117 brasileiros?

Num post o Facebook confirmou e confessou que os dados brasileiros foram compartilhados indevidamente com a CA. Estes milhares de brasileiros tiveram informações coletadas sem autorização, colocando o Brasil como o 8º país com mais usuários afetados no escândalo global.

Foi então que a Cambridge, operada por Bannon dentro da equipe de Bolsonaro (com eventuais reforços do executivo da Divisão de Campanhas Eleitorais Mark Turnbull, que teria contatado com Torretta) utilizou essas informações para traçar perfis psicológicos e direcionar anúncios políticos com fake news contra o candidato do PT e propaganda favorável ao “mito” bolsonarista hoje preso por vários crimes.

“Punição” de araque

Após sua confissão do crime, o Facebook (hoje Meta) foi punido no Brasil? Pode-se dizer que não pois o ministro bolsonarista da Justiça Anderson Torres (criminoso hoje preso) aplicou em 23 de agosto de 2022 à gigante plataforma estadunidense a pequena multa de 6,6 milhões de reais. Na verdade multa simbólica e irrisória diante do lucro de 119 bilhões de reais da empresa naquele período. Um deboche aos brasileiros.

Especialistas em redes falam ao AND

A jornalista e professora da FAC da UnB/Universidade de Brasília (Faculdade de Comunicação), doutorada em Ciências da Informação Márcia Marques, especialista no estudo do papel e complexidade das redes digitais e a ex-professora da FAC Rosângela Vieira Rocha falaram  aos leitores de AND sobre aspectos relevantes do episódio eleitoral ilícito de Jair Bolsonaro.

Ambas foram solicitadas para entrevista ao jornal, mas por dificuldade de conciliar agendas nos enviaram atenciosamente o artigo Fraude e eleições – o caso das fake news.

O texto acadêmico foi publicado na Revista Gueto (Brasil-Portugal) – Edição Especial 1 janeiro 2019.

A seguir, um resumo adaptado (intertítulos nossos):

Houve fraude, descobriu a Vox Populi

O sociólogo Marcos Coimbra, no Seminário Mídias Sociais e Comunicação Digital, realizado em Belo Horizonte em 14/12/18, afirmou que houve fraude nas eleições brasileiras de 2018. Proprietário do instituto de pesquisas Vox Populi, descreveu as alterações fora de padrão que os números apresentaram a uma semana do primeiro turno: o nome de Fernando Haddad, que vinha em alta na intenção dos eleitores, estancou; Jair Bolsonaro, que estava estacionado, registrou um avanço atípico.

Há indícios de que houve mudança de comportamento do eleitorado por conta da utilização ilegal das redes digitais para a disseminação de mentiras, as fake news, como também se denomina este fenômeno de desinformação que, embora não tenha nascido no Brasil, encontrou terreno fértil por aqui.

Página de Bolsonaro mandou 600 mil fakes

No período que antecedeu o primeiro turno, apenas uma página na internet – com o mesmo endereço do site do candidato Bolsonaro – enviou 600 mil mensagens com informações falsas relativas a questões morais: o kit gay, distribuído em escolas; a mamadeira de piroca, nas pré-escolas; a denúncia de (suposto) estupro cometido por Haddad.

Microtarget definiu alvo certeiro das mentiras

A lista de notícias falsas é imensa e os responsáveis pela campanha do ex-prefeito de São Paulo só perceberam as dimensões do problema depois que ele já estava em proporções de incêndio.

O alvo receptor desse conjunto de mentiras foi bem preciso: pessoas de baixa renda, moradoras do Sudeste do Brasil, evangélicos. Hoje, as mídias de redes – como o WhatsApp e o Twitter, utilizados fortemente por Bolsonaro – permitem definir o alvo de maneira muito específica. É o que se denomina microtarget: cada pessoa recebe mensagens contendo informações adequadas ao seu perfil, geralmente em um grupo de amigos ou colegas, o que a leva a aceitar os conteúdos como verdadeiros ou verossímeis.

O tripé e as “panelinhas”

Isto nos remete à questão da vida em rede.

(…) Os estudos de rede datam dos anos 1950/60 ligados às ciências exatas e à Ciência da Informação, que estuda a produção científica e o desenvolver do pensamento científico. As pesquisas que buscavam entender as características comuns às redes – humanas ou não – encontraram um tripé essencial: 1) todas as redes têm figuras que centralizam os fluxos, são denominados hubs – o aeroporto de Brasília é hub importante para o fluxo de aviões de e para todas as regiões do país, por exemplo; 2) a tendência de agrupar-se é outra característica da rede, os clusters nada mais são do que os subgrupos e panelinhas que se formam, seja em redes celulares, familiares, de distribuição de energia; 3) por conta de se agruparem e formarem conexões, as redes também tornam os mundos pequenos, o small world é a característica da proximidade, uma pessoa que conheça alguém que conhece o ex-presidente Lula, estará a três passos de proximidade da rede de conhecidos dele.

Ativistas mercenários e celulares com CPF falso

Foi no plano deste tripé que se deu a ação para disseminar notícias falsas que prejudicassem o candidato Fernando Haddad, da Frente Brasil Feliz de Novo. Na primeira etapa, foram produzidas notícias falsas distribuídas por robôs a partir de redes formadas nos Estados Unidos, onde a regulação é diferente da brasileira. Estas máquinas, alimentadas por robôs e por ativistas mercenários, emitiram as fake news para celulares pré-pagos brasileiros, comprados com CPFs falsos, obtidos por meio da extração de dados disponíveis nas redes. Estes celulares pré-pagos, passam a integrar grupos de amigos, familiares, onde estão as pessoas que se pretende alcançar. Este uso de celulares descentralizados segue a mesma estrutura das pirâmides financeiras para ter amplitude na disseminação.

Alerta contra os quizz: mapearam os grupos

Os grupos de amigos, familiares, os clusters, enfim, foram mapeados a partir da coleta de dados das pessoas nas redes, em mídias como Facebook, WhatsApp e Instagram (por sinal, três mídias que pertencem a Mark Zuckerberg). Um meio bastante comum de fornecimento de dados é a participação em Quizz, os questionários que querem “descobrir” que pensador você foi no século XIX, qual flor lhe representa, que filme é você. São portas abertas para o perfil de quem responde, e da rede de amigos que possui. Cada curtida diz muito sobre quem curte.

Algoritmo é a receita de bolo

São estes dados que alimentam as máquinas e são processadas por meio de algoritmos. Palavra muito usada atualmente, o algoritmo é a fórmula de como as coisas devem funcionar – uma receita de bolo, com os ingredientes, utensílios para assar e o passo a passo de como fazer, por exemplo, é um algoritmo.

A questão é que os algoritmos que orientam as máquinas chegam a ter milhares de linhas de instruções oferecidas no formato de fórmulas matemáticas. Hoje já há algoritmos que criam algoritmos: há sistemas que criam algoritmos para responder perguntas a partir da pesquisa dos dados históricos; há sistemas que criam algoritmos para usar dados históricos para prever o que vai acontecer – como no filme Minority Report.

A partir do algoritmo torna-se possível promover ações de microtarget, com a divisão da população em conjuntos matemáticos planejam-se blocos de informações mais simples de administrar. O algoritmo pode orientar o uso de todos os dados do indivíduo por suas pegadas deixadas na rede – uso de cartão para comprar coisas, cliques nas publicações da rede, encaminhamento de mensagens, dados abertos sobre servidores públicos – para saber quem ele é e o que ele quer “ouvir”. As informações são de A Nova Democracia

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