O envelhecimento da população expõe a falta de preparo do Brasil para garantir dignidade e sustento à terceira idade
É no dia a dia, na chamada rotina do cidadão, que sentimos como a sociedade brasileira já não se mostra realmente preparada para a maior longevidade que a ciência vem garantindo a todas e todos. Nas filas que se formam em um supermercado ou farmácia, percebe-se com clareza certo “desprezo” pela chamada terceira idade.
Desde o início dos anos 2000, a legislação brasileira determinou o chamado “atendimento prioritário e preferencial a pessoas com 60 anos ou mais em diversas situações”. Teoricamente, tais cidadãos deveriam ser atendidos prioritariamente. Mas isso acaba não ocorrendo.
Esse detalhe da fila das lojas comerciais é uma pequena amostra da falta de preparo da sociedade para algo inexorável: os idosos, muito em breve, serão mais numerosos do que os jovens ou mesmo adultos com menos de 60 anos.
A questão das filas será fator de menor importância diante de outros que se anunciam inexoráveis, tais como o “custo” da terceira idade para a sociedade como um todo.
Já nos dias atuais, são muitos os idosos que, mesmo tendo contribuído com a Previdência Social, não recebem aposentadorias suficientes para o próprio sustento. Dificuldade ainda maior enfrentam aqueles que, por motivos diversos, jamais adquiriram um imóvel.
Isso faz crescer o número dos que hoje, por conta dos aluguéis nas grandes cidades, refugiam-se nas periferias (em condições precárias) ou em cidades menores do interior. Distanciam-se de suas antigas convivências.
Se até recentemente era comum encontrar aposentados que ajudavam no sustento dos familiares, hoje é mais fácil esbarrar em casos de idosos que se juntam aos filhos ou outros dependentes para somarem as rendas e juntos sobreviverem — ainda assim, com dificuldades.
Situação que tende a piorar à medida que percebemos que, a cada dia, o número de contribuintes da Previdência Social se reduz, na mesma proporção em que diminui a quantidade de trabalhadores com registro profissional.
A precarização do trabalho provocará, nas próximas gerações, uma maior dificuldade de sobrevivência. Muitos idosos não contarão com aposentadorias suficientes para o sustento, nem terão chances em um mercado de trabalho que, a cada dia, fica mais automatizado e robotizado.
Portanto, a sobrevida dos idosos no futuro precisa passar a ser uma preocupação premente e permanente dos nossos governos. Está diretamente associada à questão do trabalho precarizado, que vem sendo a opção para jovens e novos profissionais de um modo geral — mas não apenas isso.
Pode depender ainda de novos programas sociais, que incluam, por exemplo, fundos especiais em substituição ou complementação à arrecadação previdenciária, os quais garantam o sustento dos que tiverem rendas insuficientes.
Por Marcelo Auler
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