O México foi tomado por uma onda de violência após a morte de Nemesio Oseguera Cervantes, o El Mencho, líder do cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), abatido em uma operação do exército mexicano no último fim de semana. A ação, considerada um golpe significativo contra uma das organizações criminosas mais violentas do país, desencadeou uma reação imediata dos cartéis, com bloqueios, confrontos e uma estratégia de terror midiático.
Ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Amauri Chamorro, especialista em comunicação política, contextualizou a violência mexicana a partir de sua posição geopolítica. “O México é um país que é afetado por ser fronteira com os EUA. Isso por quê? Porque os Estados Unidos são o maior comprador e consumidor de drogas do mundo.” Toda a cocaína produzida na Colômbia e no Peru chega ao mercado estadunidense através do território mexicano, assim como a heroína, o fentanil e outras drogas sintéticas.
Na outra direção, seguem as armas. “O México é o grande receptor das armas contrabandeadas dos Estados Unidos, armas ilegais que alimentam e munem os grandes grupos armados na América Latina”.
Essa dinâmica se intensificou após a desarticulação dos cartéis colombianos no final dos anos 1990. Os grupos mexicanos assumiram o controle da logística, mas também expandiram suas atividades para além do narcotráfico. O CJNG, em particular, “tem um controle territorial como se fosse uma milícia, um grupo paramilitar”, controlando desde o comércio ilegal até a extorsão em cerca de 20 estados mexicanos.
A característica mais assustadora do CJNG, segundo Chamorro, é sua estratégia de comunicação baseada no terror. “Eles são aquele cartel que a gente vê que pendura corpos, cabeças, desmembra pessoas, sobem vídeos nas redes sociais torturando seus inimigos e esquartejando. Eles têm uma ação comunicacional muito violenta como uma forma de impor o terror para o controle territorial.”
A operação que resultou na morte de “El Mencho” foi realizada pelo Exército mexicano – um detalhe importante, já que o México tem forças de segurança fragmentadas em polícias municipais, estaduais e federal, cada uma respondendo a diferentes autoridades, o que dificulta a coordenação e abre brechas para a corrupção.
Após a morte do líder, o país viu cenas de violência: bloqueios, ônibus queimados, trocas de tiros. Mas Chamorro faz um alerta sobre a desinformação. “Há muitos vídeos circulando nas redes sociais que são mentiras, são produzidos com inteligência artificial. A violência vista nesses vídeos não chegou a ser de tal magnitude.”
O governo mexicano, segundo ele, mantém o controle do território e conseguiu frear as ações mais ostensivas dos grupos criminosos para aterrorizar a população civil.
Chamorro questiona a narrativa de que os EUA não conseguem controlar sua fronteira. “Como pode ser que o país que supostamente tem a maior indústria de tecnologia, de segurança e de armas não consegue fiscalizar a sua fronteira? Isso não é real.”
Ele aponta para os fatos: armas fabricadas nos Estados Unidos há menos de um mês chegam facilmente a São Paulo. “É porque o próprio governo dos Estados Unidos, que tem o controle da fabricação das armas, permite que essa arma seja vendida ilegalmente em qualquer país do mundo.”
A guerra às drogas
Chamorro não poupa críticas à guerra às drogas exportada pelos Estados Unidos para a América Latina. “Não há vitória possível militar contra nenhum cartel do mundo. Os Estados Unidos, primeiro, não querem acabar com os cartéis. Segundo, não têm a capacidade militar de acabar com qualquer tipo de cartel.”
O especialista lembra que, após a morte de Pablo Escobar, o cartel de Medellín apenas mudou de nome e continuou operando. Enquanto isso, a Colômbia produz hoje “cinco, oito vezes mais cocaína do que produzia antes da guerra”, porque o consumo nos EUA só aumentou.
“É uma sociedade doente, uma sociedade violenta, uma sociedade corrupta que consome quase 90% da cocaína produzida no mundo. Enquanto essa sociedade conseguir continuar cheirando do jeito que eles cheiram, se injetando heroína e consumindo fentanil, você vai ter alguém produzindo isso”, declara.
A grande injustiça, aponta Chamorro, é a distribuição dos lucros e dos mortos. “Quem põe os mortos são os latino-americanos. Quem morre são os mexicanos, colombianos, brasileiros, bolivianos, equatorianos. Mas quem fica com o dinheiro do narcotráfico internacional? Os Estados Unidos”, destaca.
Ele explica a lógica perversa: um quilo de cocaína pode custar 1 mil dólares na Colômbia; em Nova York, o mesmo quilo chega a 60 mil dólares, podendo atingir US$ 250 mil se misturado. “Aonde ficam os 249 mil dólares? Não ficam na Colômbia, ficam nos Estados Unidos”.
O narcotráfico movimenta cerca de 600 bilhões de dólares dentro dos EUA. Esse dinheiro é lavado no sistema financeiro do país e alimenta um ciclo vicioso: as empresas de armas produzem para vender às polícias latino-americanas e também, ilegalmente, aos próprios cartéis.
Para Chamorro, a única saída é a legalização. “A única forma de combater o narcotráfico é legalizando a droga, tirando o monopólio dos Estados Unidos do consumo e criando capacidade de indústria para gerar empregos, gerar ciência.”
Ele lembra que a folha de coca é medicinal e utilizada inclusive pela indústria de alimentos – a Coca-Cola é a maior compradora oficial de folha de coca do mundo. “Como eles vêm querer transformar aquela folha numa coisa ilegal?”
Claudia Sheinbaum e o orgulho mexicano
Em meio a esse cenário complexo, a presidenta Claudia Sheinbaum mantém altos índices de popularidade – cerca de 80% no primeiro ano de mandato. Chamorro atribui isso a uma combinação de fatores: o orgulho nacional mexicano, a austeridade do governo e a percepção de que entrega o que promete.
“O México é um país que tem muito orgulho de si mesmo. Não sofrem do complexo de vira-lata. Sheinbaum, assim como López Obrador, trabalhou fortemente esse orgulho nacional, mas na hora da verdade governou conforme o que prometeu.”
O governo adota medidas austeras — ministros viajam dentro do país, não em primeira classe — e enfrenta Trump com firmeza, sem ceder. “A população vê um governo que se esforça para enfrentar o narcotráfico, para enfrentar Donald Trump, mas de maneira honesta.”
O partido Morena tem maioria no Congresso, na maioria dos estados e nas prefeituras, numa demonstração de confiança popular que contrasta com a oposição cerrada da grande mídia, que acusou López Obrador — sem nunca provar — de ter ligações com o narcotráfico.
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