“Patrulha ideológica” à educação pública é a nova forma de ataque da extrema direita, afirma pesquisador

“Patrulha ideológica” à educação pública é a nova forma de ataque da extrema direita, afirma pesquisador

Para defender “família conservadora”, como a retratada pela Acadêmicos de Niterói, ex-jogador Túlio Maravilha disse que filha não faria universidade pública. Francisco Fernandes Ladeira comenta o caso

Encerrando 2025, o Congresso Nacional aprovou o orçamento de 2026, o Projeto de Lei Orçamentária Anual (LOA), com corte de R$ 488 milhões para as universidades federais sob o aval de deputados de direita e extrema direita. Quase R$ 500 milhões (meio bilhão) foram retirados das universidades federais, colocando em risco bolsas e pesquisas, além de contas de serviços (água, luz), projetos e equipamentos, segundo uma análise conduzida pela Andifes e a UNE. O que fez com que, no dia 20 de janeiro, o governo federal precisasse anunciar uma recomposição que somava R$ 977 milhões na educação pública, apesar dos gastos já realizados com programas sociais e também isenções.

O mesmo grupo político que fala com orgulho do sucateamento das instituições públicas e a promove, hoje pratica o que Francisco Fernandes Ladeira, professor e pesquisador do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), chama de “patrulha ideológica”, ataques e interferências na educação pública que vão desde o nível básico até o superior. O especialista também afirma que a relação histórica ambígua entre elites brasileiras e o ensino público colabora para esse cenário.

A ampliação do acesso ao ensino público começou a partir dos dois primeiros governos de Luiz Inácio Lula da Silva, com a criação de 14 universidades federais, 38 novos campi no interior, os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, substituindo as antigas unidades de ensino técnico, e lançando programas educativos de inclusão.

“A classe média sobretudo ataca o ensino público a partir do momento que ele se expande, quando outras classes sociais tem acesso a educação”, afirma Ladeira. “A universidade também, mais ainda do que o ensino público, era só destinada a classe média branca. E logo, com o sistema de cotas raciais sociais, vai entrando também negros, pobres na universidade. A classe média não gosta de dividir espaço com esse público, né? Classe média quer dividir o mesmo espaço que os pobres, só se for para que eles estivessem servindo”.

Tanto que não é novidade que a política de cotas em universidades são alvo constante de ataques de ultraconservadores. Em Santa Catarina, por exemplo, o governo Jorginho Mello (PL) tentou eliminar as ações afirmativas em instituições públicas estaduais,  ação que parou na Justiça por inconstitucionalidade e foi barrada pelo STF. Também o caso mais recente do vídeo da filha de Túlio Maravilha,   em ano eleitoral, sobre as universidades “não compactuarem” com os seus “valores” é reflexo desse sistema.

“Percebo historicamente uma relação ambígua dos diferentes setores da elite econômica e também da classe média com a universidade. Parto do princípio de que o sistema público de ensino tanto básico quanto superior numa sociedade capitalista como o Brasil, a princípio está a serviço da elite econômica e da classe média”, diz, ao comentar ainda sobre as mudanças estruturais no ensino básico, como o Novo Ensino Médio e a Base Nacional Comum Curricular. “Todo esse tipo de política neoliberal no currículo também vai transformar a escola, vai reduzir carga horária de humanas e transforma ela numa espécie de preparação para o mercado de de trabalho neoliberal.”

Mas, segundo ele, isso vai além do interesse econômico. “O que vejo de novidade nos ataques da extrema direita é o ataque ideológico. A direita tradicional, como Fernando Henrique, atacava a universidade no aspecto prático, asfixiando, serviços, sucateando, etc. Já essa direita, extrema direita bolsonarista, vai até a universidade fazer essa patrulha ideológica”, destaca o professor. “Assim como igrejas neopentecostais e setores militares são a base eleitoral da extrema direita, a universidade tende, de maneira geral, a votar na esquerda. Logo, ali é um espaço um dos poucos na sociedade onde a esquerda é realmente forte e logo interessa para direita o ataque a esses espaços.”

“É outra face da direita, a meu ver, atacando a universidade. Ela ataca com o pseudo progressismo”

Na avaliação do pesquisador, o objetivo da extrema direita é disputar a narrativa pública através da construção de uma imagem negativa das universidades públicas, porque “é onde tem o pensamento crítico, onde se questionam valores, hierarquias, etc., e isso daí a extrema direita consegue canalizar num discurso moral, leva o debate público que deveria ser material para o ponto moral e logo vai conseguir fazer essa demonização da universidade pública”, comenta Ladeira.

Nos últimos anos, acusações injustificadas de “doutrinação”, pressão contra pesquisas e perseguição a professores se intensificaram. Como mostrou a Fórum, um longo estudo produzido pelo Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (ONVE), indica que a censura e a perseguição a educadores se tornaram cotidianas nas salas de aula de escolas brasileiras públicas e privadas.

O levantamento, realizado entre maio e setembro de 2024, ouviu 3 mil profissionais da educação de todas as regiões do país, e mapeou o cenário por região: os resultados indicam que ao menos 90% dos educadores relataram contato direto ou indireto com situações de censura. Entre aqueles que foram vítimas de ataques: 58% relatam tentativas de intimidação, 41% afirmam ter sido alvo de questionamentos agressivos sobre métodos de ensino e 35% tiveram conteúdos explicitamente proibidos. O estudo também identificou casos de insultos, remoções forçadas de local de trabalho e, em 10% dos episódios, agressões físicas.

Também como mostrou uma investigação do Aos Fatos, pressões do agronegócio, que conta hoje com a bancada ruralista no Congresso, têm levado editoras a alterar conteúdos de livros da grade escolar no ensino básico do Brasil,  em temas como agrotóxicos, desmatamento e mudanças climáticas.

Considerados negativos, os termos foram substituídos por expressões mais favoráveis ao setor, como a troca de “agrotóxicos” por “defensivos agrícolas” em uma obra didática entre as edições de 2020 e 2026. Profissionais do mercado editorial ouvidos sob anonimato pelos jornalistas relataram pedidos para suavizar abordagens críticas e até evitar determinados assuntos, como a relação entre pecuária e desmatamento, conflitos agrários e trabalho escravo contemporâneo. A investigação também apontou que materiais de sistemas privados de ensino são mais vulneráveis a alterações, devido à falta de fiscalização pública, ao contrário dos livros distribuídos pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), que passam por avaliação rigorosa.

Esses são apenas alguns dos casos. De acordo com o professor, para resistir aos novos ataques da extrema direita no ensino público também é preciso que as universidades públicas cheguem até a população. “Se fosse universalizado para todas as escolas brasileiras e o Estado tem essa condição, a educação cumpriria uma função social, fortalecendo a democracia, uma democracia social, uma democracia de possibilidades. É sobre trazer a sociedade para dentro da universidade, mantendo um discurso sem perder o rigor do debate acadêmico, mas que dialogue com a sociedade, que não seja aquele espaço pedante, onde se discutem ideias abstratas.” Com informações da Fórum

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