Gonet assina delação de ex-dono da Reag que pode implicar Flávio Bolsonaro

Gonet assina delação de ex-dono da Reag que pode implicar Flávio Bolsonaro

Colaboração reúne 17 anexos e pode revelar o caminho de recursos ligados ao financiamento do filme Dark Horse

AProcuradoria-Geral da República (PGR) assinou um acordo de delação premiada com João Carlos Mansur, fundador da gestora Reag, tornando-o o primeiro colaborador da Operação Compliance Zero, que apura fraudes financeiras envolvendo o Banco Master e seu ex-dono, Daniel Vorcaro.

O acordo da PGR com Mansur ocorre um dia após o ministro André Mendonça declarar “guerra” ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao ministro Alexandre de Moraes.

A colaboração tem como foco principal as operações de Vorcaro e pode abrir uma nova frente de investigação sobre o caminho percorrido pelo dinheiro movimentado pelo ex-banqueiro.

As revelações também podem produzir reflexos sobre o caso Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro que teve participação direta de Flávio Bolsonaro na captação de recursos e recebeu milhões de reais de Vorcaro.

Isso porque fundos administrados pela Reag aparecem em operações financeiras conectadas a empresas utilizadas nos repasses destinados ao longa.

Até o momento, porém, não há informação pública de que Mansur tenha citado Flávio Bolsonaro ou o Dark Horse diretamente em sua colaboração.

PGR assina primeira delação da Compliance Zero

O acordo foi fechado depois que Mansur e seus advogados apresentaram à PGR uma proposta acompanhada de documentos sobre supostos crimes financeiros atribuídos a Vorcaro.

Segundo fontes da PGR ouvidas pela CNN Brasil, Mansur foi o primeiro investigado a apresentar provas e novos detalhes sobre os crimes atribuídos ao ex-dono do Banco Master.

A colaboração é a primeira formalmente firmada pela Procuradoria no âmbito da Operação Compliance Zero.

A proposta apresentada por Mansur contemplava pelo menos 17 temas diferentes e previa o pagamento de R$ 40 milhões em multas.

O acordo já foi encaminhado ao gabinete do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF).

Mendonça deverá ouvir Mansur sobre a espontaneidade da colaboração e analisar se o acordo atende aos requisitos legais antes de decidir sobre sua homologação.

Mansur promete revelar caminho do dinheiro de Vorcaro

A Reag, fundada por Mansur, administrou diversos fundos que aparecem nas investigações sobre o Banco Master.

Segundo as informações apresentadas pelo empresário, essas estruturas teriam sido utilizadas por Vorcaro para retirar recursos do sistema financeiro, movimentar patrimônio e realizar pagamentos.

Mansur afirma que trabalhava com o Master desde 2019 e promete detalhar operações realizadas por meio de fundos de investimento, empresas, supostos laranjas e estruturas offshore.

Em um dos casos relatados, Mansur identificou supostos laranjas que teriam operado como cotistas de fundos para Vorcaro.

Entre as estruturas mencionadas está o Jaguar Multimarket Fund Ltd., registrado nas Ilhas Cayman e para o qual o Master teria enviado R$ 494 milhões.

Formalmente, o beneficiário do fundo seria Benjamim Botelho, parceiro de negócios do Master e ex-dono da Sefer, gestora também investigada na Compliance Zero. Mansur sustenta, porém, que o verdadeiro dono seria Vorcaro.

Onde Flávio Bolsonaro entra na história

O potencial impacto da delação sobre Flávio Bolsonaro passa justamente pelo aprofundamento do rastreamento das estruturas financeiras utilizadas por Daniel Vorcaro.

Flávio participou da captação de recursos para Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro, e reconheceu publicamente ter procurado Vorcaro em busca de investidores para o projeto.

Áudios revelados durante as investigações registram conversas de Flávio com o então dono do Banco Master sobre o financiamento da produção.

Segundo informações já reveladas sobre o caso, Flávio buscou com Vorcaro R$ 134 milhões para o projeto. Ao menos R$ 61 milhões foram inicialmente identificados como efetivamente transferidos.

Parte dos recursos passou pela Entre Investimentos e Participações, empresa utilizada por Vorcaro para realizar repasses destinados ao filme.

É justamente nesse caminho financeiro que aparece uma ligação com a Reag.

Fundo da Reag movimentou dinheiro com empresa usada no Dark Horse

Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelaram que o fundo Gold Style realizou transações de pelo menos R$ 20 milhões com a Entre Investimentos e Participações.

O Gold Style era administrado pela Reag.

A Entre, por sua vez, foi utilizada por Vorcaro em repasses de recursos destinados à produção de Dark Horse.

Parte do dinheiro destinado ao filme saiu da Entre e foi transferida para o fundo Havengate, estrutura no exterior utilizada para concentrar recursos da produção.

Dessa forma, a delação de Mansur ganha importância para o caso porque o fundador da Reag promete justamente revelar como funcionavam fundos, empresas e estruturas financeiras utilizadas por Vorcaro.

Caso os documentos entregues à PGR detalhem operações envolvendo o Gold Style, a Entre ou outras estruturas utilizadas nos repasses ao Dark Horse, os investigadores poderão obter novas informações sobre a origem e o caminho do dinheiro destinado ao filme.

Vorcaro colocou milhões no filme sobre Bolsonaro

As investigações sobre o financiamento de Dark Horse ganharam força depois da revelação de conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.

Os primeiros documentos apontaram R$ 61 milhões em recursos do ex-banqueiro destinados à produção.

Posteriormente, novas movimentações foram identificadas, ampliando o volume conhecido de recursos aportados por Vorcaro no projeto.

Flávio afirma que sua participação se limitou à busca de investidores para o filme e nega qualquer irregularidade.

A eventual repercussão da delação de Mansur sobre o candidato do PL dependerá, portanto, do conteúdo dos documentos entregues à PGR e de sua capacidade de revelar o caminho percorrido pelo dinheiro de Vorcaro.

Até agora, não há informação pública de que Mansur tenha acusado Flávio de qualquer crime ou mencionado diretamente o candidato em sua colaboração.

Reag também aparece na Carbono Oculto

O caso Master não é a única investigação envolvendo a Reag.

A gestora também foi alvo da Polícia Federal na Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto do ano passado, sob suspeita de ter sido utilizada para lavagem de dinheiro do PCC (Primeiro Comando da Capital).

O próprio Gold Style aparece nessa investigação. O fundo recebeu recursos de empresas suspeitas de ligação com a organização criminosa e entrou no radar das autoridades por operações consideradas suspeitas.

Mansur não chegou a ser preso nas operações e responde às investigações em liberdade, embora tenha tido bens de suas empresas bloqueados.

O Banco Central encerrou as atividades da Reag em janeiro deste ano por “graves violações às normas que regem as instituições do sistema financeiro”.

Delação será analisada por André Mendonça

O acordo firmado entre Mansur e a PGR já foi enviado ao gabinete de André Mendonça no STF.

A Polícia Federal não participou do acordo, segundo informações divulgadas sobre a negociação.

Mansur também mantém tratativas separadas com o Ministério Público de São Paulo, responsável pela investigação da Operação Carbono Oculto.

Se a colaboração for homologada, os documentos e informações apresentados pelo fundador da Reag poderão orientar novas diligências sobre o Banco Master e sobre o destino dos recursos movimentados pelas estruturas financeiras ligadas a Vorcaro.

É nesse ponto que a delação poderá alcançar o caso Dark Horse: se o rastreamento revelar novas informações sobre os fundos e empresas utilizados para financiar o filme, as descobertas poderão ser incorporadas às investigações que já analisam a participação de Flávio Bolsonaro na captação dos recursos. Com informações da Fórum

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