A nova atualização da chamada lista suja do trabalho escravo incorporou o caso da Construtao Engenharia, empresa responsável por parte das obras da usina de etanol da Três Tentos em Porto Alegre do Norte, no nordeste de Mato Grosso. Na operação, 586 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão, o maior número entre os casos incluídos agora no cadastro oficial do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Desse total, 468 foram identificados pela fiscalização como vítimas de tráfico de pessoas para exploração laboral, vindos de outros estados.
A operação ocorreu em 29 de julho de 2025, depois de uma denúncia pública sobre o incêndio que, nove dias antes, atingiu os alojamentos do canteiro de obras. Segundo o relatório da auditoria fiscal, o local abrigava 563 trabalhadores. Depois do fogo, parte deles foi transferida para hotéis, casas alugadas e, nos primeiros dias, para um ginásio nas cidades de Porto Alegre do Norte e Confresa.
No relatório oficial, os empregadores auditados foram a Tao Construtora Ltda. e a Construtao Engenharia Ltda., empresas do mesmo grupo econômico, com dois CNPJs distintos, além da Três Tentos Agroindustrial S/A, responsabilizada como contratante da obra. A fiscalização alcançou 1.051 empregados, retificou 669 registros, lavrou 44 autos de infração e garantiu 586 guias de seguro-desemprego do trabalhador resgatado.
“A princípio, a gente não imaginava encontrar a situação que achou lá”, explica a auditora-fiscal do trabalho Flora Regina Pereira, coordenadora do projeto estadual de combate ao trabalho escravo em Mato Grosso e uma das responsáveis pela força-tarefa.
A obra fiscalizada fazia parte do projeto da primeira usina de etanol da Três Tentos, uma gigante do agronegócio que lucrou, apenas em 2025, mais de R$ 800 milhões. O empreendimento, avaliado em R$ 1,16 bilhão, tinha crédito de R$ 500 milhões aprovado junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Depois do flagrante, os repasses foram suspensos.
O que a fiscalização encontrou após o incêndio
Nas casas e hotéis usados para redistribuir os trabalhadores, a fiscalização encontrou superlotação e falta de estrutura mínima. “Havia quatro, cinco trabalhadores dentro de um quarto, gente pernoitando na cozinha, em todos os cômodos, com os colchões grudados um no outro”, descreve Flora Pereira, em entrevista ao BdF. “Os alojamentos não tinham cozinha, não tinham nem pia. Os trabalhadores não tinham como fazer o básico.”
A apuração, segundo a auditora, mostrou que os problemas não começaram com a remoção emergencial dos trabalhadores depois do fogo. O próprio incêndio, segundo a auditora, não teria sido um episódio desconectado das condições já existentes no canteiro de obras. “Também foi provocado pela degradância que já existia no alojamento incendiado.”
Tao e Construtao foram autuadas por manter trabalhadores em condição análoga à escravidão, deixar empregados sem registro, fazer descontos indevidos, desrespeitar descansos e intervalos e manter dormitórios e sanitários fora dos padrões legais.
Também receberam autos por falhas na prevenção de incêndios e por descumprimento de normas de saúde e segurança. A Três Tentos, como contratante, foi autuada por não garantir condições de segurança, higiene e salubridade aos terceirizados.
“A exploração era num nível muito profundo”, resume a auditora.
Registros do alojamento após incêndio (Fotos: MTE)
Tráfico de pessoas, dívidas e impossibilidade de retorno
O relatório descreve um esquema de recrutamento voltado especialmente aos estados do Maranhão, Pará e Piauí. Segundo o documento, havia ordens de serviço para “divulgação de carro de som”, “serviços de marketing/publicidade” e “mão de obra – divulgação de vagas”. Os interessados faziam contato por telefone ou WhatsApp e, depois de autorizados, eram enviados para Porto Alegre do Norte.
Na entrevista ao BdF, a auditora Flora Pereira detalhou a engrenagem. Parte dos trabalhadores tinha a passagem adiantada pela empresa e depois descontada dos primeiros salários. “Quando chegassem a Porto Alegre do Norte, os trabalhadores teriam de ressarcir esse transporte”, afirmou. A consequência era imediata. “Eles não tinham escolha de permanecer ou não no trabalho, porque já chegavam devendo.”
Segundo o relatório, mesmo depois da promessa de contratação, o exame admissional e a assinatura da carteira só aconteciam dias depois da chegada ao destino, às vezes quase uma semana depois. Sem dinheiro para voltar para casa e já endividados com a própria viagem, muitos trabalhadores ficavam sem saída real. A fiscalização concluiu que 468 deles foram vítimas de tráfico de pessoas para exploração laboral.
“Alguns relataram que vinham dois, três dias de viagem sem comer para trabalhar aqui no Mato Grosso. Quando desistiam, a situação podia se agravar“, argumenta Flora. “Houve relatos de trabalhadores que não foram resgatados porque saíram antes da nossa chegada e ficaram em situação de rua.”
Jornadas exaustivas e horas extras pagas por fora
A jornada foi outro eixo central da operação. Segundo o relatório, a fiscalização encontrou uma rotina marcada por excesso de horas trabalhadas, falta de descanso entre jornadas, ausência de folga semanal e supressão de intervalos para repouso e alimentação. Também houve autuações por prorrogação ilegal da jornada e por dias de trabalho que ultrapassavam o limite permitido.
Segundo Flora Pereira, os depoimentos dos trabalhadores mostraram um sistema paralelo de controle de horas e pagamento por fora. “Às 17h, batiam o ponto paralelo e alguns trabalhavam até 22h, 23h, principalmente operadores de máquinas.” Em um dos casos levantados pela fiscalização, a auditoria encontrou um trabalhador com mais de 1,2 mil horas extras em sete meses. “A gente teve a situação de trabalhador há mais de 60 dias trabalhando direto, sem descanso semanal remunerado.”
O sistema paralelo de controle de jornada era conhecido entre os trabalhadores como “Ponto 2” ou “Cartão 2”. O mecanismo, que começou no papel e depois passou a usar tablets com reconhecimento facial, registrava a jornada real cumprida no canteiro, enquanto o ponto oficial servia para sustentar, no papel, uma rotina compatível com a legislação.
Para os auditores, a fraude permitia esconder jornadas exaustivas e reduzir encargos trabalhistas. As horas extras eram pagas por fora, primeiro em cheques nominais e, depois, sob a rubrica de “bônus” nos holerites, sem entrar na base de cálculo do FGTS e do INSS.
Um dos casos citados no relatório é o do motorista Adejames Lima da Silva, que acumulou 1.283 horas extras em 2025, com média de 227 por mês. Para a auditoria, esse volume ajuda a dimensionar o regime imposto aos trabalhadores e os riscos de exaustão e acidentes a que eles estavam submetidos.
A própria situação dos alojamentos, de acordo com Flora Pereira, ajudava a empurrar parte dos empregados para jornadas ainda maiores. “Eles diziam que preferiam trabalhar numa jornada maior para não ficar naquele alojamento.”
A obra da usina, a Três Tentos e dinheiro público
Enquanto isso, no mundo dos negócios, o flagrante atingiu uma obra central na estratégia de expansão da Três Tentos. Em documentos públicos, a empresa descreve a unidade de Porto Alegre do Norte como sua estreia no etanol. Na apresentação do 3tentos Day 2025, em comemoração aos 30 anos da empresa, a companhia informou que a obra estava com 85% de execução e projetou início de operação em 2026.
Segundo levantamento em documentos públicos da companhia e informações de mercado, a Três Tentos encerrou 2025 com faturamento líquido de R$ 16,4 bilhões, lucro líquido de R$ 808,7 milhões, cerca de 24 mil clientes ativos e presença em diferentes etapas da cadeia agroindustrial. O mesmo material mostra que a empresa já opera no Rio Grande do Sul e em Mato Grosso, onde encerrou 2025 com 73 lojas, e projeta expansão para novos estados, como Pará, Tocantins, Goiás e Minas Gerais.
Além do financiamento de R$ 500 milhões obtido junto ao BNDES, suspenso após a operação de resgate, a gigante do agro ainda gozou de isenções de impostos que somam ao menos R$ 870 milhões entre 2024 e 2025. Os dados dos benefícios ficais foram obtidos pelo BdF junto à Receita Federal.
Para Flora Pereira, o contraste entre a escala do empreendimento e as violações encontradas ajuda a explicar por que a operação chamou tanta atenção. “O que assustou bastante, nesse caso específico, foi o volume de trabalhadores e o porte da empresa.”