Este texto não trata da questão da ordem de recolhimento de produtos da marca Ypê, entre outros produtos da Química Amparo, pela Anvisa, por contaminação, mas da reação de algumas pessoas de extrema direita que, para defender a empresa, beberam detergente em vídeos divulgados nas redes sociais. Se você é próximo de uma delas, deve estar se perguntando: o que fazer?
Quando há uma questão de saúde mental envolvida, o melhor caminho é o acolhimento, por mais cansativo que possa ser.
A sociedade, infelizmente, menospreza essa dimensão e ignora indícios de que a pessoa não está bem. Há condições em que o indivíduo, em busca de atenção, validação coletiva, tentativa de escapar da solidão ou de superar alguma frustração de tamanho físico ou intelectual, acaba trilhando caminhos autodestrutivos criados por ele mesmo.
Ou copiando terceiros para satisfazer a necessidade de pertencimento. A ultrapolarização política ou afetiva somada à necessidade de querer aparecer na internet a todo o custo pode levar pessoas a atitudes que põem em risco sua saúde.
Neste caso, o ideal é que a pessoa procure tratamento antes de beber o detergente. O SUS (Sistema Único de Saúde) garante atendimento psiquiátrico gratuito e conta com excelentes profissionais que podem ajudar a pessoa a superar essa fase.
Famílias que estão preocupadas com seus entes queridos podem procurar a ajuda do serviço de assistência social de seu município. Não se trata de internação compulsória, mas de abrir diálogo para que a pessoa procure ajuda.
A questão é que muitas dessas pessoas se beneficiam exatamente do Estado que atacam. A razão de a Agência de Vigilância Sanitária ordenar o recolhimento de produtos é porque vivemos em uma sociedade que, minimamente, atua pelo bem-estar coletivo mesmo que o indivíduo atue de forma autodestrutiva, consciente ou inconscientemente.
Regras, leis e normas reduziram, ao longo dos séculos, o impacto da seleção natural, garantindo que todos — e não apenas os mais fortes ou os mais espertos — tenham uma chance de aprender com seus erros e seguir em frente.
Um indivíduo que consuma detergente certamente não ficará sem atendimento. Será socorrido, tratado e, se não tiver plano de saúde, cuidado pelo serviço público sem pagar nada por isso. Os responsáveis pelo Darwin Awards podem até franzir a testa em silêncio, mas, felizmente para muitos, o Samu atende.
A civilização que muitos tanto desprezam é exatamente o que está entre eles e as consequências letal de suas próprias escolhas. O Estado, com seus hospitais, suas agências reguladoras e suas ambulâncias, continua de pé, indiferente à gratidão ou à hostilidade de quem socorre.
O desfecho possível, portanto, é banal. A pessoa bebe detergente, passa mal, é atendida pelo mesmo sistema público que zombou nas redes, recebe alta e volta para casa. Talvez faça um novo vídeo. E tem liberdade para isso, porque vivemos em um Estado democrático de direito.
Por Leonardo Sakamoto
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