Adversário do Brasil na Copa, Haiti vive crise causada pelos militares brasileiros, diz especialista

Adversário do Brasil na Copa, Haiti vive crise causada pelos militares brasileiros, diz especialista

Quando o Brasil e o Haiti entrarem em campo nesta sexta-feira (19), pela segunda partida da fase de grupos da Copa do Mundo 2026,  o duelo colocará frente a frente duas seleções separadas não apenas pela tradição no futebol, mas também por realidades políticas profundamente distintas.

Enquanto o Brasil chega ao torneio como uma das principais forças da competição, o Haiti tenta chamar a atenção do mundo para uma crise que há décadas mobiliza governos, organismos internacionais e pesquisadores, e pela qual tanto o Brasil quanto os Estados Unidos, país anfitrião do torneio, são um pouco responsáveis.

Considerado o país mais pobre das Américas, o Haiti enfrenta uma longa crise política e econômica, que se reflete também em violência armada, insegurança alimentar e outros problemas sociais.

Para a jornalista e pesquisadora Vanessa Martina Silva, a crise atual não pode ser explicada apenas por fatores internos.

“A economia haitiana praticamente não exste em termos como a gente entende aqui no Brasil.O setor de serviços é muito forte. Na verdade, toda a economia do país praticamente é informal”, afirma a acadêmica.

Influência estadunidense e brasileira

Se dentro de campo, o Haiti enfrentará o Brasil em busca de um título esportivo, fora dele a relação entre os dois países é marcada por uma história de intervenções e disputas sobre soberania.

De acordo com Martina Silva, a influência norte-americana é um elemento central para compreender a crise haitiana contemporânea, já que os Estados Unidos “não participam apenas de uma fase da crise. Eles estão envolvidos até o pescoço em praticamente todos os momentos decisivos da história recente do Haiti”.

“Desde que o Haiti se tornou independente, os EUA exercem algum tipo de tutela sobre o país. Houve uma ocupação militar no início do século 20 e, mais recentemente, interferências diretas nos processos políticos haitianos”, acrescentou.

A análise da jornalista cita o golpe de Estado sofrido pelo padre e ex-presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide em 2004, pela consequente criação das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah, por sua sigla em francês), por onde começou a influência do Brasil nos processos sociais e políticos no país.

Segundo ela, a iniciativa promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU) foi criada em um contexto de forte contestação política, mas não em uma situação de guerra civil, afirmando que “o Haiti não tinha uma guerra, o que existia era um descontentamento a partir da destituição de um presidente legitimamente eleito”.

Martina Silva também lembra que “o Brasil entrou nessa operação acreditando que poderia demonstrar capacidade de liderança internacional, mas acabou assumindo o papel de executor de uma política que interessava principalmente aos Estados Unidos”.

Entre 2004 e 2017, o Brasil liderou militarmente a Minustah e comandou o maior contingente da operação. Embora a missão tenha sido apresentada como uma iniciativa voltada à estabilização política e à segurança pública, sua atuação permanece alvo de controvérsias.

“Os Estados Unidos usaram o Brasil para fazer a intervenção da Minustah, e o Brasil acabou sendo a face mais visível de uma estratégia internacional conduzida principalmente por Washington, mas também pelas grandes potências”, avalia Vanessa.

Entre os militares que fizeram parte da Minustah estão nomes que depois fizeram carreira na política, como Augusto Heleno Ribeiro, que foi ministro do Gabinete de Segurança Institucional do governo de Jair Bolsonaro (2019-2023), e que atualmente se encontra em prisão domiciliar, condenado pelo Superior Tribunal Federal (STF) em 2025, por ter feito parte da trama golpista liderada por Jair Bolsonaro após as eleições de 2022.

Outros uniformados que formaram parte da Minustah são Tarcísio de Freitas, atual governador de São Paulo; Fernando Azevedo e Silva, ex-ministro da Defesa do governo de Bolsonaro; e Carlos Alberto Santos Cruz, que ocupou o cargo de ministro-chefe da Secretária Geral de Governo durante os primeiros seis meses do governo bolsonarista.

A missão também ficou marcada pela epidemia de cólera que atingiu o Haiti, após o terremoto de 2010. Anos depois, a ONU reconheceu que a doença foi introduzida no país por integrantes da Minustah, causando uma crise sanitária que deixou milhares de mortos. Segundo a acadêmica, essa situação afetou sensivelmente a percepção de parte da população haitiana sobre a atuação brasileira durante a missão da ONU.

Outro problema que marcou a presença de militares brasileiros no Haiti foram os abusos cometidos contra a população, incluindo possíveis ações sistemáticas de abusos sexuais contra mulheres e meninas haitianas, situação denunciada por entidades internacionais defensoras dos direitos humanos – os testemunhos apontam à participação de soldados de diferentes países, não só do Brasil, mas também de Chile, Uruguai e outros.

Apesar das críticas à atuação militar brasileira, ela destaca que a população haitiana mantém uma forte identificação cultural com o Brasil.

“Os haitianos têm um amor pelo Brasil incomensurável. Eles torcem pelo Brasil, admiram o Pelé e enxergam no país uma referência muito positiva”, ressalta.

‘Crise mais grave do hemisfério’

Tal cenário voltou aos holofotes nesta terça-feira (17/06), após declaração do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, que classificou o Haiti como o país com “a crise mais grave do hemisfério ocidental”, na qual mais da metade dos 11,7 milhões de habitantes dependem de ajuda humanitária para se alimentar, enquanto cerca de 1,5 milhão de pessoas foram deslocadas pela violência das gangues armadas.

Guterres também criticou a comunidade internacional diante da crise e cobrou maior apoio ao país caribenho.

A economia formal do Haiti opera de forma limitada. A agricultura, que já foi um dos pilares da produção nacional, encontra-se em colapso. A indústria é restrita e concentrada principalmente no setor têxtil voltado à exportação.

Grande parte da população depende do comércio informal e das remessas enviadas pela diáspora haitiana espalhada por países como Estados Unidos, Canadá, República Dominicana, Brasil e Chile.

Nas estradas do interior do país, a sobrevivência acontece no cotidiano, com pequenos agricultores e comerciantes vendendo alimentos e mercadorias à beira das rodovias, criando redes informais de troca que sustentam milhares de famílias. Segundo Martina Silva, parte desse cenário está ligado a decisões econômicas tomadas ao longo das últimas décadas.

“As pessoas plantavam e elas próprias consumiam. Quando esse sistema foi desmontado, criou-se uma dependência enorme de produtos importados”, destaca, ao analisar o impacto da abertura do mercado haitiano ao arroz subsidiado dos Estados Unidos.

A jornalista e pesquisadora também criticou a forma como foi conduzida a reconstrução após o terremoto do Haiti de 2010, que devastou Porto Príncipe e agravou a fragilidade institucional do país.

Embora bilhões de dólares tenham sido prometidos pela comunidade internacional, ela argumenta que grande parte dos recursos acabou concentrada em organismos internacionais, consultorias e organizações não governamentais.

” O mundo se mobilizou pelo Haiti mas os haitianos não tiveram controle sobre esses recursos. Criou-se uma enorme estrutura internacional para administrar o dinheiro sem que a população fosse protagonista desse processo”, afirma.

Governo indefinido?

Durante os últimos anos, a situação política do Haiti se agravou drasticamente. O assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021, aprofundou um cenário de instabilidade que já vinha sendo construído por sucessivas crises institucionais.

O período mais recente de turbulências inclui denúncias de fraude eleitoral, escândalos de corrupção ligados ao programa PetroCaribe, a paralisação do Parlamento, o adiamento de eleições e o fortalecimento de grupos armados que passaram a disputar espaços de poder com o próprio Estado.

“O que acontece durante o governo Moïse é um processo de destruição do que restava de normalidade institucional. As eleições deixam de acontecer, o Parlamento vai sendo esvaziado e o país entra em uma situação de caos político”, afirma Vanessa Martina Silva.

A pesquisadora salienta que a grande questão do Haiti neste momento é quem governa o país e quando haverá eleições. “O Haiti não tem presidente, não tem deputados, não tem senadores. Então a pergunta é: quem manda?”, pondera Vanessa Martina Silva.

A maior autoridade do país atualmente, é o primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé, que não possui os poderes de um presidente e que é questionado no exercício do seu próprio cargo por vários setores sociais.

Ademais, o país enfrenta dificuldades para realizar eleições e reconstruir suas estruturas de governo. Em diversas regiões, grupos armados exercem controle territorial e desafiam a autoridade do Estado.

Segundo a pesquisadora, a combinação entre violência, ausência de instituições plenamente funcionais e disputas políticas impede a organização de um processo eleitoral capaz de ser reconhecido pela população e pelos diferentes atores políticos do país.

“Quando Michel Martelly chega ao poder, há um fortalecimento das gangues que hoje controlam parte do país. Essa agenda de segurança que resultou no caos atual também passa por decisões políticas tomadas naquele período”, comenta.

 Além da crise política, a população convive com graves dificuldades sociais. Em muitas localidades, serviços básicos como saúde, educação e segurança pública funcionam de forma precária ou dependem da atuação de organizações religiosas e comunitárias. Ao mesmo tempo, milhões de haitianos enfrentam insegurança alimentar e dependem de ajuda humanitária para sobreviver. As informações são do Ópera Mundi

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