Antigos integrantes da milícia que controlava a região trocaram de lado e passaram a atuar com o CV na região onde Fabrício Queiroz se escondeu durante o escândalo de corrupção das rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro.
Rio das Pedras, comunidade da Zona Oeste do Rio conhecida como um dos berços da milícia carioca e como o local onde Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, se escondeu, entrou no centro de uma nova disputa armada após ex-paramilitares se aliarem ao Comando Vermelho (CV) para tentar tomar o território.
A informação foi publicada por O Globo nesta sexta-feira (19). Segundo a apuração, antigos integrantes da milícia que controlava a região trocaram de lado e passaram a atuar com o CV, o que pode acelerar a perda de domínio de um dos territórios mais simbólicos do paramilitarismo no Rio.
A ofensiva ocorre em meio a uma escalada recente de tensão em Rio das Pedras, com relatos de ruas bloqueadas, comércio fechado, toque de recolher e operações policiais. A Polícia Civil também apura a existência de cemitérios clandestinos na região, usados para ocultação de corpos em áreas de mata.
Rio das Pedras foi esconderijo de Queiroz
Rio das Pedras já havia se tornado personagem da política nacional por sua ligação com Fabrício Queiroz, ex-policial militar e ex-assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Como mostrou a Fórum, Queiroz se abrigou na comunidade após as primeiras denúncias do caso que ficou conhecido como rachadinha.
O caso envolvia suspeitas de desvio de parte dos salários de assessores do antigo gabinete de Flávio na Alerj. O senador sempre negou irregularidades. A denúncia apresentada pelo Ministério Público do Rio contra Flávio, Queiroz e outros investigados acabou rejeitada e arquivada pelo Tribunal de Justiça do Rio depois de decisões que anularam provas usadas no processo.
A presença de Queiroz em Rio das Pedras expôs, ainda em 2019, a proximidade entre o submundo da milícia carioca e personagens do bolsonarismo fluminense. A comunidade, naquele momento, já era tratada em investigações como território sob domínio paramilitar.
Milícia explorava imóveis, taxas e serviços clandestinos
Denúncia do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Rio de Janeiro descreveu a atuação de uma organização criminosa nas comunidades de Rio das Pedras, Muzema e adjacências. Segundo o documento do MPRJ, o grupo atuava como poder paralelo ao Estado.
A acusação atribuía à milícia envolvimento com grilagem, construção, venda e locação ilegal de imóveis, receptação de carga roubada, posse e porte ilegal de armas, extorsão de moradores e comerciantes, cobrança de taxas, ocultação de bens por meio de laranjas, falsificação de documentos públicos, propina a agentes públicos, agiotagem e ligações clandestinas de água e energia.
Esse histórico explica o peso da disputa atual. A eventual tomada de Rio das Pedras pelo Comando Vermelho não significaria apenas a substituição de um grupo armado por outro. Representaria a queda simbólica de uma área que ajudou a estruturar o modelo moderno de milícia no Rio, baseado em domínio territorial, extorsão e exploração de serviços essenciais.
Prédios ilegais ligaram Rio das Pedras ao caso Flávio
O território também foi associado a suspeitas sobre prédios ilegais ligados à milícia. Em 2020, reportagem do Intercept Brasil apontou, com base em documentos de uma investigação sigilosa, que recursos atribuídos ao esquema de rachadinha de Flávio Bolsonaro teriam irrigado construções em áreas como Rio das Pedras e Muzema.
A reportagem afirmava que empreendimentos de três construtoras teriam sido abastecidos com dinheiro coletado no antigo gabinete de Flávio na Alerj. À época, o Ministério Público do Rio contestou informações da publicação, alegando que a reportagem não retratava a verdade dos fatos, mas confirmou a existência de investigação contra o então ex-deputado estadual.
O ponto central, para o contexto atual, é que Rio das Pedras já aparecia antes como território onde política, milícia e mercado imobiliário ilegal se cruzavam. A nova ofensiva do CV recoloca essa geografia criminal no centro da cena.
Comando Vermelho avança sobre berço da milícia
A aliança de ex-milicianos com o Comando Vermelho muda a correlação de forças porque entrega à facção conhecimento interno sobre rotas, lideranças, pontos de cobrança, esconderijos, funcionamento do comércio local e mecanismos de controle da comunidade.
Na prática, a disputa transforma moradores em reféns de dois modelos de domínio armado. De um lado, a milícia, historicamente associada à cobrança de taxas, grilagem, transporte clandestino, venda de imóveis irregulares e exploração de serviços. De outro, o tráfico, que tenta ampliar seu território em uma área estratégica da Zona Oeste.
A guerra entre CV e milícia já havia aparecido em outro episódio de repercussão nacional. Em 2023, a Fórum mostrou como a disputa por territórios na Zona Oeste estava por trás da execução de médicos na Barra da Tijuca.
Naquele caso, criminosos teriam confundido o médico Perseu Ribeiro Almeida com Taillon de Alcântara Pereira Barbosa, apontado como liderança da milícia de Rio das Pedras. Além de Perseu, morreram Marcos de Andrade Corsato e Diego Ralf Bomfim, irmão da deputada federal Sâmia Bomfim. Daniel Sonnewend Proença sobreviveu.
Disputa em Rio das Pedras expõe marca bolsonarista do território
Rio das Pedras carrega uma marca política que vai além da crônica policial. Foi ali que Queiroz buscou refúgio quando o escândalo da rachadinha começava a atingir Flávio Bolsonaro. Foi também no entorno de Rio das Pedras e Muzema que surgiram suspeitas sobre construções ilegais associadas à milícia e citadas em reportagens sobre o patrimônio político-criminal que orbitou o caso.
Por isso, a ofensiva do CV tem impacto simbólico para além da segurança pública. A comunidade que abrigou o ex-assessor de Flávio, que apareceu em documentos do MPRJ como área de atuação miliciana e que foi associada a investigações sobre imóveis clandestinos agora pode deixar de ser um bastião paramilitar para virar área de influência do tráfico.
O avanço também evidencia a falência do modelo de controle armado tolerado por anos em áreas da Zona Oeste. A milícia se vendeu por muito tempo como barreira contra o tráfico. O caso Rio das Pedras mostra o inverso: ex-milicianos agora aparecem como peça operacional do Comando Vermelho na tentativa de tomar o território.
Enquanto a disputa avança, moradores seguem submetidos ao medo, ao fechamento de ruas, às ordens de criminosos e à ausência concreta do Estado. A troca de bandeira no comando armado não muda a lógica central: Rio das Pedras continua sob ameaça de grupos que disputam, com fuzis, a vida econômica e cotidiana da comunidade.
Por Diego Feijó Abreu
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