Alvo de operação da Polícia Federal por fraude, o Banco Digimais, do bispo Edir Macedo, foi autorizado pelo governo de São Paulo, administrado por Tarcísio de Freitas, do Republicanos, partido ligado à Igreja Universal, a operar empréstimos consignados para policiais militares. E isso em setembro do ano passado, quando o banco já andava mal das pernas.
Não só o governo de São Paulo, mas também a prefeitura da capital, administrada por Ricardo Nunes, também autorizou crédito consignado debitado em folha de pagamento para servidores públicos municipais. A justificativa de que todo o banco que cumpre requisitos pode ser credenciado, independente do risco que represente ao público, é algo que estava na origem dos problemas de outro banco, o Master.
A autorização também é mais uma evidência da presença da igreja no governo paulista. Eventos para policiais e professores da rede estadual vêm sendo realizados em templos da Universal, religiosos da instituição atendem em batalhões policiais, cursos e atendimentos da igreja são realizados no sistema prisional através de acordos de cooperação.
Muitos se questionaram por que os governadores Cláudio Castro (PL-RJ) e Ibaneis Rocha (MDB-DF) fecharam negócios bilionários com o Banco Master, de Daniel Vorcaro, quando este já era uma instituição zumbi. A pergunta deve ser transferida agora a São Paulo.
Aliás, o modus operandi das fraudes do Digimais seria parecido com o do Banco Master: enquanto Daniel Vorcaro multiplicava pães fabricando carteiras inteiras de crédito consignado falso para justificar bilhões em ativos ilusórios, a instituição de Macedo optou pelo milagre da reciclagem.
Seu banco pegava suas carteiras de crédito podres, como financiamentos de veículos que ninguém ia pagar, e jogava em fundos de investimento em que o próprio banco era o dono. É o velho golpe do “Zé com Zé” para fingir saúde e apresentar lucro no balanço.
Maquiados por contabilidades criativas sob intensa pregação de sucesso, Master e Digimais ostentavam um vigor de mentira para captar dinheiro de verdade. Vendiam a imagem de um milagre financeiro, mas entregaram o de sempre: a socialização do risco e a privatização do lucro.
O que a operação da Polícia Federal evidencia, portanto, vai muito além de uma simples manobra contábil: joga luz sobre o custo das conveniências políticas.
Ao escancarar as portas do funcionalismo paulista para uma instituição que já respirava por aparelhos, Tarcísio e Nunes transformaram o contracheque de servidores em uma tentativa de boia de salvação para um projeto insustentável.
No caso do governador, a história é ainda mais complicada porque o banco era do líder da igreja ligada ao seu partido.
A grande questão que fica, agora, não é apenas como o banco forjava seus números, mas como o governador e o prefeito explicarão a entrega da margem financeira de seus trabalhadores ao altar de um banco que, no fim das contas, só operava milagres para si mesmo.
Por Leonardo Sakamoto
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