Se os filhos de Bolsonaro traíram a própria mãe, o que não fariam com a madrasta Michelle?

Se os filhos de Bolsonaro traíram a própria mãe, o que não fariam com a madrasta Michelle?

Antes de se juntarem contra Michelle, a família Bolsonaro viveu um episódio que marcou sua história e definiu o caráter do bando: Carlos foi lançado pelo pai para demolir a própria mãe nas urnas, enquanto Rogéria Bolsonaro acusava Jair de violência política e perseguição.

Vinicius Segalla resgatou esse capítulo no DCM com base em documentos oficiais, registros da imprensa da época e depoimentos prestados à Polícia Civil.

Em 2000, Rogéria Nantes Braga Bolsonaro, mãe de Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro, e primeira esposa de Jair, tentava conquistar seu terceiro mandato como vereadora do Rio de Janeiro.

Ela havia iniciado sua carreira política pelas mãos do então marido. Quando Jair Bolsonaro deixou a Câmara Municipal para assumir uma cadeira como deputado federal, lançou Rogéria como sua sucessora na política carioca. Ela foi eleita em 1992 e reeleita quatro anos depois, tornando-se uma importante representante do grupo liderado pelo ex-capitão terrorista.

Mas tudo mudou após a separação do casal, ocorrida em 1997.

Na época, Jair Bolsonaro chegou a explicar publicamente por que o casamento havia terminado. Em entrevista à revista IstoÉ Gente, afirmou que o relacionamento começou a ruir quando Rogéria deixou de seguir suas orientações como vereadora.

Segundo ele, havia um acordo para que ela consultasse o marido antes de votar em temas considerados polêmicos. Bolsonaro declarou que ela “não soube respeitar o poder e a liberdade” que ele lhe havia concedido. Mesmo divorciada, Rogéria decidiu disputar mais um mandato.

Jair Bolsonaro resolveu à sua maneira. Em vez de apoiar a mãe de seus três filhos, lançou Carlos Bolsonaro como candidato à Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Carlos tinha apenas 17 anos.

Para que pudesse concorrer, Jair providenciou sua emancipação, permitindo que o adolescente se candidatasse antes de atingir a maioridade. Na prática, mãe e filho passaram a disputar exatamente o mesmo eleitorado: os apoiadores de Jair Bolsonaro.

Na ocasião, a antiga Tribuna da Imprensa criticou duramente a estratégia. “Bolsonaro emancipou o filho para jogá-lo contra a mãe. Em seu grupo político, não há ninguém merecedor de sua confiança. Já que não é a (ex-)mulher, tem que ser o filho. Um menino ainda, sem o mínimo preparo, com o único objetivo de dizer aos seguidores do deputado-capitão que o seu preposto na Câmara Municipal não é mais a ex-mulher, mas sim o filho, disputando os dois o patrimônio eleitoral do parlamentar. Se isso não é nepotismo, o que é?”, disse o jornal.

Enquanto Carlos fazia campanha ao lado do pai, Flávio e Eduardo permaneceram integrados ao projeto político familiar. Nenhum dos dois saiu em defesa da mãe. Calaram-se, covardes que são, submetidos ao esquema paterno.

A campanha ganhou contornos mais dramáticos em setembro de 2000.

Gilberto Gonçalves, ex-militar, ex-amigo de Jair Bolsonaro e cabo eleitoral de Rogéria, foi violentamente espancado enquanto distribuía panfletos na zona norte do Rio de Janeiro.

Segundo depoimento prestado por Rogéria à Polícia Civil, Jair Bolsonaro teria passado pelo local pouco antes da agressão, visto o antigo aliado trabalhando para sua ex-esposa e deixado a região.

Pouco depois, três homens dominaram e espancaram Gonçalves. Rogéria afirmou acreditar que o ex-marido era o mandante da agressão.

Na época, ela declarou à imprensa que o episódio demonstrava o “desequilíbrio psicológico e mental” de Jair Bolsonaro e acrescentou que ele havia chegado ao ponto de colocar o próprio filho para concorrer contra a mãe.

As acusações foram investigadas pela Polícia Civil. O inquérito, entretanto, acabou arquivado por falta de provas, sem que ninguém fosse responsabilizado criminalmente pelo espancamento. Rogéria não foi a única ex de Jair a denunciar violência e comportamento emocionalmente instável. Conforme a Veja, Ana Cristina Siqueira Valle, mãe de Jair Renan, afirmou que foi vítima de agressões e disse ter recebido ameaças de morte do ex-marido. Deixou o Brasil por temer por sua segurança.

A campanha terminou da forma desejada por Jair Bolsonaro.

Carlos Bolsonaro foi eleito vereador com pouco mais de 16 mil votos e entrou para a história como o vereador mais jovem do Rio de Janeiro. Rogéria perdeu o mandato. Nem mesmo depois da vitória houve qualquer tentativa de amenizar o rompimento familiar.

Ao comentar o resultado da eleição, Jair Bolsonaro afirmou que aquela não havia sido uma disputa entre mãe e filho. Segundo ele, havia sido uma eleição “de filho com o pai”.

Em seguida, fez uma declaração que ficou registrada pela imprensa da época: “Para mim, ela já está morta há muito tempo.”

Após a eleição, ainda houve uma batalha judicial. O Ministério Público Eleitoral tentou impedir a diplomação de Carlos Bolsonaro, sustentando que um menor de idade não poderia assumir o cargo de vereador.

Jair Bolsonaro recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral e venceu.

A Corte decidiu que a exigência constitucional de idade mínima deveria ser observada na data da posse, e não do registro da candidatura. Como Carlos completou 18 anos antes da diplomação, pôde assumir normalmente o mandato em janeiro de 2001.

O resto é história.

Por Kiko Nogueira

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