A indignação seletiva expõe quem pode lucrar sem incômodo enquanto o velho monopólio mantém o jogo em seu favor
Nas últimas semanas, a CazéTV — fenômeno de audiência comandado pelo influenciador Casimiro Miguel em parceria com a LiveMode — tornou-se o alvo principal de críticas e de uma investigação da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon).
O motivo é a exposição agressiva de casas de apostas, as chamadas bets, com QR Codes fixos e apelos diretos dos comentaristas durante as partidas da Copa do Mundo.
Um dos quadros exibidos pela CazéTV apresenta as odds, isto é, as probabilidades associadas a determinadas apostas, como o número de gols de uma seleção em uma partida.
Em despacho enviado ao Globo, a Senacon informou que está avaliando se esse tipo de prática respeita as normas que exigem publicidade responsável, transparente e com informações claras sobre os riscos envolvidos. A legislação proíbe, por exemplo, a divulgação de mensagens que induzam a ideia de ganhos fáceis ou garantidos.
A fiscalização sobre a responsabilidade publicitária e a proteção ao consumidor é legítima e necessária. No entanto, o tom seletivo exala aquele profundo odor de armação. Enquanto os órgãos reguladores miram a CazéTV, a Rede Globo assiste ao debate de camarote.
Tapar os olhos para o motor dessa indústria no Brasil é cegueira deliberada. O grupo Globo firmou uma joint venture com a MGM Resorts International para lançar e operar a marca BetMGM no Brasil. A aliança, firmada em 2024, une a gigante de Las Vegas em jogos de azar ao poder midiático da emissora, mirando um dos mercados que mais crescem no mundo.
A operação brasileira nasceu de uma sociedade com a Globo Ventures, o braço de investimentos e novos negócios comandado por Roberto Marinho Neto. O garoto-propaganda é Luciano Huck, que tem ligação comercial e de investimentos com os negócios de jogos do grupo.
De um lado, Huck lucra com a venda de empresas de jogos digitais e, de outro, faz um programa assistencialista voltado para a população de baixa renda que ele mesmo ajudou a se endividar.
Uma única edição do Big Brother Brasil veicula inserções, dinâmicas patrocinadas e comerciais de bets de envergonhar o capeta. No horário nobre da TV aberta, o jogo de azar é envelopado como entretenimento familiar. Até hoje, o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamento Publicitário) nunca achou nada estranho.
A sonegação milionária na Copa de 2002
Se a discussão atual gira em torno da ética e da transparência das receitas que financiam o esporte, vale a pena refrescar a memória sobre como a coisa funciona há décadas.
Para garantir os direitos exclusivos de transmissão da Copa do Mundo de 2002, a Rede Globo preferiu os bastidores dos paraísos fiscais. Utilizou uma empresa de fachada nas Ilhas Virgens Britânicas para intermediar o pagamento à FIFA.
A manobra consistiu em registrar o montante bilionário sob a rubrica contábil de “investimentos e participação societária no exterior”, ocultando que se tratava da compra de direitos de transmissão para burlar o Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF).
O DCM fez uma série de reportagens sobre o tema, financiada por crowdfunding. O documentário contando essa história está no pé deste artigo.
Anos depois, a Receita Federal descobriu a fraude e lavrou um Auto de Infração no valor de R$ 615 milhões — composto por R$ 183 milhões de imposto omitido, R$ 274 milhões de multa por simulação fraudulenta e R$ 157 milhões de juros.
As pastas do processo chegaram a ser furtadas de dentro do prédio da Receita por uma servidora em 2007. Sem saída, a Globo foi obrigada a confessar a dívida e aderir ao parcelamento do REFIS em 2009.
É preciso que todos paguem pela farra das bets. Apontar o dedo para a CazéTV e poupar Globo, SBT et caterva não é proteger o telespectador ou o sujeito que vai à ruína. É apenas garantir que as regras do jogo continuem favorecendo os mesmos monopólios de sempre.
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