O quadro intitulado Independência ou Morte! ou O Grito do Ipiranga, de autoria do pintor Pedro Américo, foi encomendado pela Comissão do Monumento do Ipiranga para se tornar a representação do momento da Independência do Brasil.
No entanto, diversos pesquisadores há tempos vêm questionando o quanto essa obra realmente representa o processo que culminou no 7 de setembro de 1822.
Em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato, Carlos da Silva Jr, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana com doutorado na Universidade de Hull, no Reino Unido, alerta para o recorte de classe que há na visão construída pela pintura.
“A pintura do Pedro Américo é produzida numa perspectiva de apresentar o imaginário ou uma visão das elites políticas a respeito do que foi esse processo histórico, mas ele é muito mais complexo. A independência também é um processo que envolveu a participação popular, um processo que envolveu lutas da população, que envolveu em alguns casos conflitos militares com a perda de milhares de vidas”, explica o historiador.
Para ele, o protagonismo das elites políticas da época também pautou as bandeiras que eram priorizadas e as que ficaram de fora do processo de independência.
“A grande parte das pessoas envolvidas [no 7 de setembro], e hoje nós sabemos disso, eram membros da elite, elite escravista, aliás. Então a escravidão sustentava a economia colonial, como mais tarde vai sustentar a economia do Império do Brasil, nem todos esses movimentos questionavam o reivindicavam o fim da escravidão”.
Para o historiador, o processo de independência do Brasil foi inacabado, por não garantir o fim do regime de escravidão no país. A historiografia mostra ainda que esse processo mobilizou outros atores sociais, que ficaram negligenciados na memória desse fato histórico e que não são representados na obra de Pedro Américo. Ele destaca ainda que o processo se iniciou muito antes, a exemplo da chamada Revolta dos Búzios, também conhecida como Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates, acontecida em Salvador em 1798.
“Outros projetos políticos estavam em disputa naquele momento. Acabou que no final das contas a configuração política social levou à instalação de um regime monárquico aqui no Brasil, mas você tem outros grupos sociais que reivindicavam maior participação política, que reivindicavam cidadania, que reivindicaram o fim da escravidão, como os próprios líderes desse movimento em 1798 [Revolta dos Búzios, na Bahia]”.
Ele aponta que uma figura que passou para posteridade nesse campo da memória histórica, mas que ainda é pouco relacionada ao processo da independência, foi a Maria Felipa. “Ela é uma representação das lutas populares, das lutas das mulheres negras pela independência, na expulsão dos portugueses, no caso dela, na ilha de Itaparica”, completou o acadêmico.
O professor ainda destaca o 2 de julho de 1823, consolidado como Independência da Bahia, como um marco para a efetivação do processo de independência do Brasil da coroa portuguesa.
“Se as tropas brasileiras, lideradas pelos baianos, não tivessem garantido a expulsão dos portugueses e entrado na cidade de Salvador no 2 de julho de 1823, a gente não sabe exatamente como é que seria a configuração desse novo território. A Bahia era um espaço interessante para Portugal. A partir da Bahia, eles podiam garantir uma resistência em relação ao Rio de Janeiro e poderiam expandir eventualmente essa conquista em relação às províncias do Norte, para garantir a continuidade da presença portuguesa no território do Brasil”.
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