1-Meia boca
Gladson não teve o sucesso que esperava na tentativa de colocar panos quentes no atrito gerado pela confusão envolvendo seus secretários e a líder de seu governo na Assembleia Legislativa. Mas a Aleac recuou. Os que compareceram ao Jantar da Paz afirmam que o ambiente era de evidente desconforto. Mal comeram e se retiraram. Mas a Aleac não publicou a Nota de Repúdio que foi anunciada. Acho que nem vai. Michelle Melo está abatida. Numa posição difícil diz que o Legislativo saiu fortalecido e ao mesmo tempo tenta aliviar para Gladson a quem chama de “sensível”. Atribui toda a culpa aos secretários. Como se estes não cumprissem ordens. Como se não estivesse rodando nos bastidores desde antes do episódio, a informação que o governo busca alguém para substituí-la. Michelle está fragilizada. Foi vítima também do machismo dos que acreditaram que ao colocar uma mulher na função, teriam as cordas para move-la como um fantoche. O ambiente que estava ruim não melhorou. E os dois lados estão esperando a poeira baixar.
2-Vítima
Michelle Melo foi a vítima desse processo. Foi levada à posição de líder do governo talvez para evitar que sua voz combativa se unisse às cobranças da oposição. Depois de um tempo defendendo o governo ficaria desacreditada se passasse a criticar. O que facilitaria o descarte. Se foi esta a intenção, deram com os burros n’água. Afinal o episódio desta terça-feira (11) deu a ela a chance para mudar de lado sem se queimar. Coragem para isso ela tem. Mas tem por trás também um partido aliado do governo e uma família que talvez tenha negócios com o governo. Que ninguém queira estar na pele dela. E não. Não existem gravações das falas dos Secretários de Gladson. Para entrar na reunião os agentes tiveram que se submeter a um “bacu”. Os celulares ficaram na ante sala.
3-Vítimas
O estopim da bomba são os 300 trabalhadores provisórios do Instituto Socioeducativo que foram tirados da escala em nome de um processo que nem foi concluído. Está parado porque um dos Ministros pediu vistas. Deve ser votado em setembro ou outubro. Depois da votação, ainda tem os embargos e recursos. O que significa que dificilmente se terá uma decisão antes do fim do ano. Até a decisão final estão amparados pela Lei aprovada pela Aleac. Mas o governo insiste em se antecipar. Alguns têm 18 anos de trabalho provisório no ISE. Participaram de grupos trabalho e passaram pelos concursos temporários. No ISE trabalharam diretamente com menores ligados à facções. O que os torna duplamente vulneráveis. Sem trabalho e a mercê de uma possível vingança. Um desses trabalhadores teve o muro de casa pichado com o nome de uma facção na madrugada desta quarta-feira (12). A título de esclarecimento: a Lei aprovada na legislatura passada transformou os provisórios em efetivos sem o devido concurso público.
4- Repetição
O Acre já viveu uma situação parecida anos atrás quando o Supremo determinou a demissão de 11 mil trabalhadores que haviam sido contratados depois da Constituição de 1988 sem concurso público. O então governador Jorge Viana (PT) se recusou a cumprir a determinação e foi ameaçado de prisão. Mesmo sob ameaça, não demitiu. Sua competente Procuradoria Geral do Estado apelou para a Modulação, um recurso que protege o interesse social, evitando que a declaração de inconstitucionalidade produza efeitos negativos. Com isso ganhou tempo. Os anos se passaram e nenhum trabalhador foi demitido. Todos se aposentaram.
5-…e diferença
O atual governador age de maneira diferente. Em vez de buscar uma saída que permita a manutenção dos empregos dos agentes do ISE, repete as cenas de sempre. Senta nas escadarias e diz aos demissionários “bora conversar”. Na conversa diz que quer a relação dos nomes dos demissionários. Como se a relação não estivesse pronta e na mesa de seu secretariado. Com isso ainda faz os coitados correrem ao ISE em busca da tal relação. Vão na fé. Acreditam que aos 44 minutos do segundo tempo Gladson vai tomar uma atitude em favor deles. Triste para quem vê. Desesperador para quem vive. A situação é tão complicada que um grupo de psicólogos está trabalhando em regime de mutirão para tratar os que estão com a demissão na porta.
6-Armas & assassinatos
No dia em que Rio Branco registra o assassinato de dois garotos de 15 anos em bairros distintos mas no espaço de cerca de uma hora e o assassinato de um rapaz em um terceiro bairro, todos com tiros na cabeça e em plena luz do dia, o senador do Proarmas, Alan Rick (União), registra uma reunião com o coordenador do Proarmas de Rio Branco. Na postagem em sua rede social Alan repete o mantra “não é sobre armas, é sobre liberdade”. Ele discorre ainda sobre o IV Encontro Proarmas do último domingo. Aquele em que Eduardo Bolsonaro (PL) comparou professores a traficantes. O senador não mencionou este detalhe, mas concluiu o post com o sugestivo “contem com o meu apoio” e colocou as tags #Proarmas e #CACs. Quem precisa de apoio, nobre senador, é a juventude, cada vez mais jovem, vitimada por armas.
7-Cada um
A decisão de Lula (PT) de acabar com as escolas cívico-militares está embasada em orientação de especialistas em Educação que apontam os Colégios de Aplicação e Institutos Federais, com ensino técnico paralelo ao ensino médio e não os militares, como os donos dos melhores resultados do país na escola pública. Apesar de custarem menos que as escolas cívico-militares. Os países que estão no topo do ranking mundial de educação possuem uma educação civil, não militar. Exemplo disso é a Finlândia que tem a melhor Educação do mundo. No Brasil o governo Bolsonaro investiu 100 milhões nas escolas cívico-militares que se transformaram em cabide de empregos para militares da reserva fazerem “bico”. Com isso empregou 892 militares, com salários que chegam a 9.152 (coronéis) além do valor das aposentadorias, quando muitos professores com formação para isso não chegam a ganhar 3 mil. É a substituição do diploma pela farda…mofando no armário. Militares são importantes mas administrar escolas não função deles assim como comandar quartel não é função de professor. Cada um no seu quadrado.
8-…no seu quadrado
Educação militar reproduz a hierarquia rígida dos quartéis. Esse ambiente pode até ajudar a disciplinar/domesticar os estudantes, mas não ajuda a desenvolver o intelecto. Grandes pensadores e cientistas só se tornaram importantes para a humanidade porque desenvolveram suas próprias ideias e não apenas repetiram o que os professores falaram. Um programa educacional deve ir além do perfilamento de estudantes para cantar o Hino Nacional em datas específicas. Precisa fazer aprender a pensar. Além disso os escândalos envolvendo militares com aquelas compras esquisitas de próteses penianas e envolvimento de militares em tráfico de drogas mostra que o discurso de “disciplina honra e verdade”, muitas vezes não se reproduz na prática. No Acre, onde a Educação funciona com um número grande de professores provisórios o governo se apressou a divulgar através do Secretário Aberson Carvalho, que vai manter as escolas militares apesar da decisão do presidente Lula. Não informou de onde sairá o dinheiro para isso. O que levanta a questão- se o governo dispõe de dinheiro para bancar as escolas militares (mais caras que as outras), porque não o utiliza para regularizar a situação dos professores provisórios com concurso público? Encerro por hoje esse tema complexo com uma piada que rola nas redes sociais: “Governo Lula acata a sugestão de Eduardo Bolsonaro contra a doutrinação nas escolas e acaba com as escolas militares”.
Bom dia, eleitor. O aumento do número de vereadores para Rio Branco amplia a possibilidade de votar errado ou o voto errado aumentou o número de vereadores? Resolver esta questão não é requisito para a obtenção do título de eleitor, mas serve para uma reflexão né?
Esta é uma coluna de opinião e reflexão
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