Brasil conquista seu primeiro Oscar: Ainda Estou Aqui, ganhou a estatueta de Melhor Filme Internacional
A vitória fundamental no mais relevante evento do cinema mundial marca a história do cinema nacional e aumenta o interesse internacional pelo cinema brasileiro. O longa é essencialmente um filme político que reacende o debate sobre a memória da ditadura militar no Brasil. O longa mostra ao público internacional parte do sofrimento da população durante os 21 anos da ditadura militar que promoveu milhares de casos de violações aos direitos humanos, como prisões arbitrárias, torturas, assassinatos e desaparecimentos forçados, como o do ex-deputado Rubens Paiva.
O filme joga uma luz sobre o período de triste (e fraca) memória, e evidencia os novos golpistas que cultuam torturadores da época da ditadura, como o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), que posou para fotos com uma camiseta homenageando Carlos Brilhante Ustra, considerado o líder das torturas da ditadura militar.

Saiba mais sobre Ustra, o herói de Eduardo Bolsonaro
Apesar do filme Ainda Estou Aqui tratar essencialmente da história de força e determinação de uma mãe para criar seus 5 filhos reduzindo os danos do desaparecimento forçado do marido, mostra os efeitos de um regime autoritário na vida de pessoas comuns. Não é um filme sobre a ditadura militar mas pincela seus horrores. É um filme sensível, elegante e comedido sobre a força da mulher mas desperta curiosidade e pesquisas sobre o período em que se passa. Tanto que o diretor Walter Salles dedicou o Oscar à Eunice Paiva, a mulher de Rubens Paiva, personagem central de seu filme. Justo reconhecimento feito às vésperas do Dia Internacional da Mulher (8 de março): “Uma honra tão grande. Isso vai para uma mulher que teve uma perda tão grande. Esse prêmio vai para ela, Eunice Paiva, e para as mulheres extraordinárias que deram vida a ela, Fernanda Torres e Fernanda Montenegro”.
O sujeito ocultado
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Rubens Paiva foi eleito deputado federal pelo PTB em 1962. Ele era um defensor das reformas de base propostas pelo presidente João Goulart. Após o golpe de 1º de abril de 1964, foi cassado e forçado ao exílio. Em seus discursos e declarações públicas, ele alertava sobre o envolvimento direto dos Estados Unidos na derrubada de Goulart. Mais tarde, descobriu-se a Operação Brother Sam, um plano do governo estadunidense para apoiar os militares brasileiros com navios, tropas e armamentos, caso houvesse resistência ao golpe.
Com o endurecimento do regime, Paiva retornou ao Brasil e passou a atuar discretamente na oposição. No entanto, sua posição crítica nunca foi esquecida pelos militares, e ele permaneceu sob constante vigilância. A denúncia feita por Rubens Paiva sobre o papel dos Estados Unidos no golpe de 1964 é hoje amplamente documentada, reforçando como interesses estrangeiros influenciaram a história política do Brasil. Os Estados Unidos viam a política externa do Brasil, independente, como uma ameaça à hegemonia dos EUA na América Latina.
Com uma agenda voltada à soberania nacional, Jango defendia a necessidade de um Brasil autônomo tanto no campo econômico quanto na geopolítica. Seu governo aprofundou relações com países do bloco socialista e propôs uma série de mudanças estruturais que ameaçavam as elites econômicas, incluindo uma reforma agrária que redistribuiria terras improdutivas.
As reformas de base e a reação das elites
No plano interno, Jango defendia mudanças estruturais para reduzir desigualdades e fortalecer a economia nacional. As reformas de base, apresentadas em seu governo, incluíam:
Essas medidas enfrentaram forte resistência das elites agrárias, industriais e financeiras, que viam nelas uma ameaça a seus privilégios, tal como hoje. Apoiada pelos militares e pela grande imprensa, a oposição conservadora intensificou a retórica anticomunista e passou a conspirar abertamente contra Jango, igual ao que se vê atualmente com as viagens de parlamentares de oposição que liderados por Eduardo Bolsonaro (PL), pedem sanções e até de invasão dos Estados Unidos ao Brasil (Marcos do Val-Podemos).
A prisão, tortura e assassinato pelo regime
Em 20 de janeiro de 1971, Rubens Paiva foi sequestrado em sua casa, no Rio de Janeiro, por agentes da repressão. A versão oficial da ditadura alegou, na época, que ele teria fugido da prisão durante uma transferência, mas documentos e testemunhos posteriores confirmaram que Paiva foi levado para o DOI-Codi, onde foi brutalmente torturado e assassinado. Seu corpo nunca foi entregue à família.
O governo norte-americano, preocupado com a ascensão de políticas nacionalistas na América Latina, decidiu intervir. Documentos desclassificados mostram que os Estados Unidos financiaram grupos opositores e prepararam a Operação Brother Sam, um plano militar para apoiar os golpistas com armas, navios e fuzileiros navais, caso houvesse resistência.
Em 31 de março de 1964, tropas militares iniciaram a derrubada de Goulart. No dia seguinte, ele partiu para o exílio, sem resistência armada. O golpe inaugurou um regime que duraria 21 anos, marcado pela repressão, censura e pela submissão total aos interesses norte-americanos.
O golpe de 1964 não foi apenas um ataque à democracia, mas um movimento estratégico para frear a soberania do Brasil. A interrupção das reformas de base e a reversão da política externa independente consolidaram um modelo de dependência econômica e alinhamento automático com os Estados Unidos, cujas consequências se estenderam por décadas.
O golpe militar de 1964, pano de fundo do filme Ainda Estou Aqui, foi uma ruptura institucional que atendeu a interesses internos e externos (EUA), interrompeu o projeto de desenvolvimento soberano do Brasil e alinhou o país a uma nova ordem de submissão aos Estados Unidos. Submissão defendida 61 anos depois pela Extrema Direita brasileira que tem como expressões máximas, além da família Bolsonaro, figuras como Nikolas Ferreira (PL), Tarcísio de Freitas (Republicanos), Magno Malta (PL), Damares Alves (Republicanos), Gustavo Gayer (PL), Marco Feliciano (PL) e Silas Malafaia (pastor), dentre outros extremistas de direita.
Celebração
O Brasil parou, em pleno Carnaval, para comemorar a vitória de Ainda Estou Aqui, num tributo à civilização, celebrando a força da cultura brasileira. A conquista foi celebrada na Sapucaí lotada por causa do desfile das Escolas de Samba do grupo especial; nos trios elétricos, nos blocos de rua, nas residências; em locais públicos onde ruas foram interditadas e telões colocados para que as pessoas acompanhassem o desempenho do filme brasileiro na premiação.
Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Alcione e Pablo Vittar, pararam seus shows para anunciar a vitória de Ainda Estou Aqui.
Melhor Atriz
Fernanda Torres perdeu o prêmio de Melhor Atriz para a estadunidense Mikey Madison, protagonista de Anora, um filme onde para espanto nenhum, o vilão é russo. O resultado foi considerado pelos brasileiros uma grande injustiça. Quem assistiu aos dois filmes e compara a atuação das duas não consegue evitar a decepção. Mas convenhamos, a Academia não concederia dois prêmios ao cinema brasileiro. Principalmente quando havia duas atrizes estadunidenses concorrendo. Como Demi Moore (A Substância), não é exatamente a queridinha da Academia, tinha que ser Mikey. Repetiram em 2025 o que fizeram em 1999 quando Fernanda Montenegro, a primeira latino-americana indicada ao prêmio de Melhor Atriz, pelo filme Central do Brasil, perdeu para a estadunidense Gwyneth Paltrow no inexpressivo Shakespeare Apaixonado.
Para os brasileiros Fernanda Torres é a melhor e ponto final.
Segundo o teólogo Leonardo Boff, Ainda Estou Aqui é um alerta contra o autoritarismo e deixa o apelo: sequestro e morte nunca mais.
A hora é de celebrar o Brasil no podium e o resgate da cultura depois de um período de execração dos artistas, da história e da cultura.