Eduardo Bolsonaro acusa Walter Salles de produzir filme sobre ditadura inexistente
Enquanto o Brasil, Argentina, Chile e México dentre outros, comemoravam o Oscar de Melhor Filme Internacional para o longa brasileiro Ainda Estou Aqui, que se passa durante o regime militar no Brasil, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, acusou o diretor Walter Salles de ter feito uma história sobre uma ditadura inexistente.
“Acredito que o sujeito que bate palmas para a prisão de mães de família, idosos e trabalhadores inocentes, enquanto faz filme de uma ditadura inexistente e reclama do governo americano, que lhe dá todos os direitos e garantias para que suas reclamações públicas e mentirosas sejam respeitadas pelo sagrado direito da liberdade de expressão, define, em essência, o conceito do psicopata cínico”, escreveu Eduardo Bolsonaro no X, antigo Twitter, na noite de terça-feira (4).
O parlamentar e a família dele integram o grupo dos defensores da volta de uma ditadura ao Brasil. Provas apreendidas pela Polícia Federal mostram que a tentativa de golpe de Jair Bolsonaro foi inspirada no golpe de 64. Esconder a tortura, as mortes, os abusos e violações é parte fundamental para voltar ao poder. Por isso a negativa.
Vale ressaltar dois fatos a respeito: Eduardo Bolsonaro usou camiseta com foto do torturador-mor do violento período da ditadura, Carlos Brilhante Ustra.

e o pai dele, Jair Bolsonaro, citou o nome do coronel Ustra ao votar pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff.
Pai e filho sabiam o que estavam fazendo. Se não houvesse a repressão, não haveria Ustra.
A política de extermínio implantada pelo regime autoritário instituído em 31 de março de 1964, foi responsável por pelo menos 10 mil assassinatos segundo avaliação da presidenta da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), Eugênia Augusta Gonzaga. Em entrevista à Agência Pública, a procuradora regional da justiça afirma que nos números oficiais não foram contabilizados os camponeses, indígenas e vítimas dos esquadrões da morte. Tampouco as crianças vítimas de meningite cujos corpos foram jogados desaparecidos na vala de Perus. De acordo com estimativas, mais de 8 mil indígenas e 1654 camponeses, assassinados não foram contabilizados nos documentos oficiais. E não foram fantasmas que os mataram de susto.
Crianças vítimas da ditadura militar
Na fase mais violenta desse período, os “filhos de terroristas” eram sequestrados para que os militares pudessem extrair mais informações ou, simplesmente, pudessem se vingar de seus pais. O livro Cativeiro Sem Fim, de Eduardo Reina, mapeou o sequestro de 19 bebês, crianças e adolescentes feitos por militares e traz o relato de seis vítimas torturadas ainda na infância.
O caso mais emblemático é o de Carlos Alexandre Azevedo, preso com os seus pais, em 1974, com apenas um ano e oito meses. Segundo a família, Carlos foi torturado no DOPS de São Paulo, e em consequência disso desenvolveu uma depressão severa que o levou ao suicídio em 2013.
Os torturadores do regime autoritário usavam os filhos dos presos para conseguirem informações. No auge da ditadura militar, crianças e até mesmo bebês eram submetidos a diversas torturas psicológicas e físicas. Maria Amélia Teles, um dos casos documentados, foi torturada na frente de seus filhos pequenos. Os militares levaram Edson Teles, na época com 5 anos, e Janaina, com 4 anos, para ver sua mãe nua, sangrando, vomitada e urinada.
A ordem era matar filhos dos presos, mas muitas vezes os militares não cumpriam o que lhes era mandado e colocavam as crianças para a adoção. Crianças indígenas também estavam na lista de sequestros, segundo o escritor.
Meningite na ditadura militar, Covid na gestão Jair Bolsonaro, tudo a ver
Os primeiros casos de meningite apareceram em 1971 e levaram a morte, em questão de semanas, pelo menos 10 crianças, inclusive bebês com menos de um ano. Sob intensa censura, os veículos de comunicação foram proibidos de divulgar o problema. Desde janeiro de 1970 os veículos de comunicação do Brasil estavam sob censura prévia (Decreto-Lei 1077, de 26 de janeiro de 1970), só podiam divulgar conteúdos que fossem liberados pelos militares e estes temiam prejuízo à imagem do país no mercado global por causa da epidemia de uma doença para a qual já existia vacina. Em nome da segurança nacional médicos e sanitaristas foram proibidos de falar sobre o assunto. Em consequência, o Brasil viveu a maior epidemia de meningite da história do país porque as pessoas não tinham informações dos riscos nem de como se proteger. A censura contribuiu para a livre circulação da doença. Há suspeita de que o regime escondeu corpos de jovens mortos pela meningite porque em 1990 foram encontradas valas clandestinas no cemitério de Perus, em São Paulo, com ossadas de jovens que podem ter sido vítimas da meningite. Em 1974, a capital de São Paulo registrou 2500 mortes por meningite. Só então o problema foi reconhecido pelos generais.
A conduta do ex-presidente, capitão Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covi-19 guarda semelhanças com a maneira como os generais trataram a epidemia de meningite. Bolsonaro minimizou o problema da covid; fez troça de pessoas morrendo sem ar; estimulou o tratamento com medicamentos comprovadamente ineficazes; demorou a adquirir vacinas, o que poderia ter evitado milhares de mortes; estimulou a aglomeração e criticou o uso de máscaras além de mandar alterar a forma de divulgar os dados da pandemia.
Indígenas
No livro Tom Vermelho do Verde, Frei Betto afirma que o segmento mais atingido pela ditadura militar foram os povos indígenas e não o pessoal que integrou a resistência armada, o movimento estudantil, o movimento sindical ou mesmo os grupos e partidos clandestinos, como se pensa.
Os povos indígenas foram atingidos principalmente pelas grandes obras, como a abertura das rodovias Transamazônica e a BR-174, entre Manaus a Boa Vista. Segundo os estudos de Frei Betto, para abrir essa rodovia, a ditadura massacrou mais de 2 mil waimiri atroari com incêndio nas palhoças, com napalm, helicópteros, metralhadoras e outros recursos. Colocavam o fogo nas choças dos indígenas com as famílias todas lá dentro, inclusive com crianças.
Eduardo Bolsonaro
O deputado federal por São Paulo, está praticamente morando nos Estados Unidos e pode não querer voltar ao Brasil por medo de ser preso por conspirar contra o país. As publicações dele no X mostram que tenta pressionar o governo dos EUA a adotar retaliações contra o Brasil e contra o ministro do STF, Alexandre de Moraes, aquele cujo nome estava na lista do golpe para ser assassinado junto com os nomes do presidente Lula (PT) e do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).
Moraes é o relator do inquérito sobre a trama golpista.
As sanções dos EUA contra o Brasil seriam uma forma de enfraquecer a gestão de Lula e pavimentar o caminho para que Jair Bolsonaro volte ao poder. Por conta disso foi protocolado na Procuradoria-Geral da República (PGR), um pedido para que Eduardo Bolsonaro seja investigado e tenha o passaporte apreendido por suas ações que configuram crime de lesa-pátria e tentativa de interferência no curso das investigações conduzidas pelo Judiciário brasileiro.
De acordo com a Revista Fórum, Eduardo Bolsonaro também tem se movimentado para minar as relações comerciais entre Brasil e China, favorecendo os interesses dos EUA. O fortalecimento das parcerias sino-brasileiras representa uma ameaça à influência dos EUA no país, e Eduardo busca barrar acordos estratégicos firmados entre os dois governos.
Em entrevista a um canal de extrema direita dos EUA nesta terça-feira (4), o deputado afirmou que a representação de Rogério Correia tem como objetivo impedir que ele assuma a presidência da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (Creden) da Câmara dos Deputados. O comando das comissões será definido na próxima semana pelo presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), e parlamentares governistas se articulam para impedir que Eduardo assuma o colegiado.
Na mesma entrevista, Eduardo Bolsonaro deixou claro que, caso presida a Comissão de Relações Exteriores, trabalhará para dificultar a aprovação dos acordos firmados entre o presidente Lula e o presidente da China Xi Jinping. Sua estratégia envolve barrar esses tratados dentro da comissão, enfraquecendo as relações sino-brasileiras e beneficiando diretamente o governo Trump.
Ao compartilhar a entrevista em seu canal no Telegram, Eduardo Bolsonaro deixou clara essa intenção:
“Entre os 37 acordos assinados por Lula com Xi Jinping no G20, que precisam ser aprovados na Comissão, estão temas sensíveis como tecnologia nuclear, fornecimento de urânio, telecomunicações, controle digital e mídia. Seria coincidência que agora querem me impedir de assumir a comissão que irá avaliar esses acordos tecnicamente e que pode barrá-los caso identifique eventuais obstáculos ao interesse nacional brasileiro? O que está em jogo pode não ser apenas o meu passaporte, pode ser a própria soberania do Brasil”, escreveu o deputado.
Depois da maneira como Trump humilhou Zelensky, Eduardo Bolsonaro deve ter entendido que nesse meio não há amizades, só interesses e que assim como o presidente da Ucrânia, a família Bolsonaro não significa nada para Donald Trump e Elon Musk. A menos que tenha algo a oferecer. Nesta negociação o Brasil é a moeda de troca.
A visível tensão do parlamentar extremista o leva a exageros de retórica como o posicionamento sobre o filme Ainda Estou Aqui e o fato de não ter havido uma ditadura militar no Brasil. E isso provoca reflexões sobre o período militar. O que não é bom para ele.
Imagem de capa- Aventuras na história
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