Adeus Mujica: América Latina se despede de um de seus líderes mais icônicos

Adeus Mujica: América Latina se despede de um de seus líderes mais icônicos

Mujica transformou o Uruguai na Suíça das Américas

Ele nasceu em Montevidéo em 1935 com o nome de José Alberto Mujica Cordano, mas foi como Pepe Mujica que se tornou mundialmente conhecido. Ateu, ex-guerrilheiro, preso político e floricultor, transformou o Uruguai no país mais avançado das Américas em termos de respeito aos direitos fundamentais do trabalho, em particular a liberdade de associação, o direito à negociação coletiva e o direito à greve.

Em seu governo (2010 e 2015), descriminalizou o aborto; aprovou o casamento homossexual, a adoção para casais homossexuais e o ingresso de homossexuais nas Forças Armadas; legalizou a maconha permitindo o cultivo e a posse da erva para consumo individual, mas com a produção, distribuição e venda sob o controle do Estado. Durante sua gestão, a taxa de desemprego caiu de 13% para 7%, a taxa de pobreza nacional de 40% para 11% e o salário-mínimo foi aumentado em 250%. Avanços que contemplaram a população mas geraram severas críticas da oposição política e religiosa em cuja análise pesavam mais a despesa social na despesa pública total que aumentara de 60,9% para 75,5% e os valores cristãos conservadores respectivamente. A oposição política criticava o governo dele pela falta de avanços econômicos mais robustos e pela lentidão de algumas reformas estruturais. Mas a população uruguaia reconhecia os avanços e Mujica deixou o cargo com altos índices de aprovação e respeito internacional.

Com Mujica o Uruguai foi o primeiro país do mundo a legalizar a produção e venda da maconha, como forma de combater o narcotráfico com políticas públicas e se consolidou como o país mais progressista das três Américas. Colocou o país no mapa internacional como  referência em democracia e inclusão social. Mostrou como políticas focadas no bem-estar social podem transformar uma nação.

Coerência ética e humildade no poder

Conservador nos hábitos, mesmo como presidente da República, Pepe Mujica recusou os luxos do cargo. Não quis ocupar a residência oficial e continuou a morar na modesta chácara Rincón del Cerro, na zona rural de Montevidéo, com a esposa, única companheira de toda sua vida, as plantas,  a cachorra Manuela, a inseparável cuia de chimarrão (mate) e sem seguranças. Também recusou veículo oficial e continuou usando seu fusca azul 1987.

Não usava terno e doava quase todo o salário para causas sociais. Enquanto presidente, Mujica recebia 230 mil pesos (cerca de R$ 22 122) mensais, que dividia em doações para o seu partido, Frente Ampla e para construção de moradias. No inverno, oferecia o Palácio Presidencial como abrigo para os sem-teto expostos ao frio. Mas dizia que não fazia apologia da pobreza e sim apologia contra a idiotice.

Mujica se tornou símbolo mundial de coerência ética e humildade no poder — contrastando com a pompa e o autoritarismo que frequentemente marcam a vida política. Era grande. Não precisava de luxo e pompa. Tanto que se tornou símbolo da luta por justiça, dignidade e igualdade ao passo que os que optam pelas benesses do poder só ocupam notas de rodapé ou páginas negativas da história.

Homem do povo

De origem humilde,  durante a ditadura militar apoiada pelos EUA que se apropriou do Uruguai, da mesma maneira que se instalou no Brasil, Argentina e Chile quando os Estados Unidos decidiram se apossar de “seu quintal”,  ingressou no movimento guerrilheiro de resistência Tupamaros, que atuava contra a repressão e a desigualdade social.  Ficou preso por determinação dos ditadores, em condições desumanas por mais de 13 anos. Passou longos períodos isolado em celas minúsculas, sob tortura psicológica e física. Após a redemocratização, Mujica trocou as armas pela política institucional. Foi deputado, senador e, em 2005, assumiu o Ministério da Pecuária, Agricultura e Pesca no governo de Tabaré Vázquez, do Frente Ampla, coalizão de esquerda da qual se tornou um dos principais nomes.

Tupamaros

O nome do grupo de resistência que atuou no Uruguai de 1963 a 1972 remete ao líder peruano Tupac Amaru que liderou os peruanos contra os invasores espanhóis no século XVIII.

O fundador do Movimento de Liberação Nacional – Tupamaros (MLN-T ) foi Raul Sendic, advogado, revolucionário guerrilheiro e político do Uruguai. Entre as primeiras ações do partido, destacam-se as investigações dentro de grandes corporações que tinham por objetivo encontrar documentos que comprovassem a corrupção governamental. O grupo também praticava guerrilha urbana com assaltos a clubes de armas, bancos, sequestros e propaganda de guerrilha como forma de derrubar o regime autoritário que acabou com os direitos dos cidadãos. Segundo historiadores, o dinheiro que conseguiam nas ações ilegais era distribuído para as camadas mais pobres da população.  Os integrantes dos Tupamaros eram majoritariamente  universitários, técnicos e profissionais liberais.

Coerência até o fim

Pepe Mujica  era um militante socialista e como tal viveu e morreu. Tinha incoerências como decerto todos os seres humanos, embora em número menor que os demais. Gostava de tomar uísque. Combatia o conservadorismo nos costumes mas só teve uma mulher em toda a sua vida, Lucía Topolansky, sua companheira desde a época da guerrilha. Reagia aos opositores político-ideológicos com respeito, dizendo que “É fácil ter respeito por quem pensa parecido, mas o fundamento da democracia é respeitar quem pensa diferente”. O que fez de Pepe referência ética e símbolo de uma política feita com os pés no chão e as mãos na terra.

Diagnosticado com câncer de esôfago, em abril de 2024, quando a doença se espalhou para o fígado decidiu não continuar com tratamentos médicos e faleceu nesta terça-feira (13), uma semana antes de completar 90 anos de idade. Pediu para ser enterrado em sua chácara, onde também está enterrada Manuela, a cachorra que o acompanhou por 22 anos. Mujica dizia que Manuela era a integrante mais fiel de seu governo.

O homem que foi presidente do país e do Mercosul, deputado, senador e ministro, não virou milionário. Não comprou mansões, fazendas, apartamentos, carros de luxo ou jatinhos. Permaneceu a vida toda com suas roupas simples, seu fusca azul 1987 e sua linguagem direta. Não usou o poder para enriquecer mas enriqueceu seu povo com direitos plenos. Reconheceu que não fez tudo o que devia e que sua maior dívida com o Uruguai era a pobreza. Mujica nunca negou seu passado de guerrilheiro.

O homem que assumiu a presidência do país com 75 anos, foi muito mais ousado que jovens de 20. Ele também  participou do Foro de São Paulo e ajudou a fundar o Grupo de Puebla.

“Com imensa tristeza, nos despedimos de Pepe Mujica, A sua trajetória inspira quem sonha com um mundo mais humano. Que seu legado siga acendendo esperanças. Até sempre, companheiro!”, escreveu o MTST em nota.

“O guerreiro tem direito a seu descanso”, disse ele ao comentar o fim próximo. E nós temos o direito de lamentar sua perda e a falta de líderes tão comprometidos quanto, com o bem estar e a dignidade da população.

Que a chama da esperança continue a brilhar apesar de. Como a frase de Pepe Mujica:

“Sigo confiando nos homens, apesar de que todos os dias eles me desconcertam.”

 

 

 

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