O falso Conselho da Paz, o genocídio palestino e a disputa pela governança global no século XXI
O convite e a armadilha
O convite feito por Donald Trump ao presidente Lula para integrar um suposto “Conselho da Paz” para Gaza não é um gesto diplomático convencional. Ele surge em um contexto de genocídio em curso, desgaste deliberado das instituições multilaterais e tentativa explícita dos Estados Unidos de reconstruir sua capacidade de comando global por meio de arranjos paralelos à ONU. Trata-se, portanto, de um movimento calculado dentro da disputa pela governança do pós-guerra em Gaza.
Esse movimento se insere em uma estratégia mais ampla de produção do caos como instrumento de poder. Trump acumula frentes simultâneas de tensão com grandes potências, regiões periféricas e organismos multilaterais, utilizando a instabilidade como método de recomposição de hegemonia. O “Conselho da Paz” segue essa lógica: não resolve conflitos, mas reorganiza centros decisórios fora do direito internacional. O convite a Lula, nesse cenário, não é um chamado à mediação, mas um teste político desenhado para forçar o Brasil a atuar em um tabuleiro incompatível com seus princípios históricos.
Gaza e a materialidade do genocídio
Qualquer discussão séria sobre “paz” em Gaza precisa partir da materialidade dos fatos. Gaza não é um território em disputa simétrica, mas uma população civil submetida há anos a cerco, punição coletiva e destruição sistemática de suas condições de existência. O que se intensifica desde 2023, ao longo de 2024 e 2025, não é um conflito convencional, mas um processo contínuo de extermínio social, urbano e humano, marcado por bombardeios indiscriminados, colapso sanitário, fome induzida e aniquilação deliberada de infraestrutura civil.
Essa realidade não pode ser dissociada de sua moldura histórica. Gaza e Cisjordânia integram um mesmo continuum colonial, sustentado por fragmentação territorial, expansão de assentamentos, controle militar permanente e negação de soberania política. Gaza representa a forma extrema desse modelo: um território convertido em espaço de confinamento, onde a vida é administrada por critérios de segurança impostos por uma potência ocupante e onde a autodeterminação é sistematicamente adiada.
É nesse contexto que a ideia de “pós-guerra” se revela enganosa. Não há reconstrução possível enquanto as causas estruturais da destruição permanecem intactas. Reconstruir sem pôr fim ao cerco, sem garantir direitos políticos e sem reconhecer a autodeterminação Palestina significa apenas gerir a devastação. Prédios podem ser refeitos; direitos, quando negados, perpetuam o ciclo da violência. A materialidade do genocídio não termina com o silêncio das armas: ela persiste sempre que a arquitetura política do conflito permanece colonial.
O falso Conselho da Paz e a lógica da tutela colonial
O chamado “Conselho da Paz” não nasce como mediação multilateral, mas como mecanismo de administração tutelar do pós-guerra, concebido para deslocar o centro decisório da ONU para um arranjo político paralelo, sob comando direto de Washington. Sua institucionalização confirma essa natureza: em novembro de 2025, o Conselho de Segurança endossou o plano norte-americano para Gaza, acolheu a criação do Board e autorizou que ele operasse entidades sob sua “autoridade transitória”, inclusive uma força internacional com comando “aceitável” ao próprio Conselho. Trata-se de um roteiro clássico de tutela: transição indefinida, reformas condicionadas e autodeterminação sempre adiada.
A intenção real do dispositivo torna-se explícita em seu desenho político e financeiro. Reportagens indicam um estatuto com presidência concentrada em Trump, amplos poderes de veto e controle de membros, além de um modelo de adesão baseado em mandatos temporários e possibilidade de assentos permanentes mediante contribuição bilionária. Essa arquitetura converte governança internacional em mercadoria política e transforma a reconstrução de Gaza em instrumento de dependência, não de emancipação. Um conselho que admite “cadeiras compradas” não produz paz; produz hierarquia.
Essa lógica aparece também na narrativa oficial do plano, que trata o pós-guerra como problema de “oversight”, captação de recursos e gestão tecnocrática. Direitos, soberania e autodeterminação surgem como variáveis secundárias, subordinadas à estabilidade definida pelos mesmos atores que sustentaram a destruição. O Conselho, assim, não encerra o genocídio; ele o reorganiza em forma administrável, normalizando a violência como transição e esvaziando o princípio fundamental que deveria orientar qualquer solução legítima: a Palestina como sujeito político pleno, não como objeto de governança colonial.
A ONU sob ataque e a disputa pela governança global
O esvaziamento da ONU não é efeito colateral do conflito em Gaza; é parte central da estratégia em curso. O “Conselho da Paz” surge para deslocar decisões políticas fundamentais para fora do sistema multilateral, reduzindo a ONU a papel operacional ou humanitário. Trata-se de uma inversão perigosa: o multilateralismo deixa de comandar e passa a apenas legitimar, a posteriori, arranjos definidos por fora do direito internacional.
Esse ataque é também material. A ofensiva contra a UNRWA, com cortes de financiamento, criminalização de funcionários e destruição de instalações, visa corroer a principal infraestrutura internacional que reconhece o estatuto político e jurídico do povo palestino. Enfraquecer a ONU, nesse caso, significa apagar a linguagem dos direitos, da autodeterminação e da responsabilidade internacional. Não é uma disputa administrativa; é uma disputa pela memória jurídica do conflito.
A própria resolução que endossa a “transição” em Gaza evidencia a contradição: ao mesmo tempo em que invoca o Conselho de Segurança para conferir legalidade, autoriza a criação de entidades sob autoridade externa à ONU. O precedente é grave. Se a ONU aceita ser contornada em um caso dessa magnitude, abre-se caminho para uma governança global baseada em conselhos ad hoc, lideranças personalistas e exceções permanentes. Resgatar a ONU, portanto, não é idealismo; é necessidade estratégica para qualquer país que não aceite a privatização da paz e a substituição do direito pela força.
Lula como sujeito histórico do Sul Global
O convite dirigido a Lula só se explica pela posição singular que ele ocupa no sistema internacional. Lula não é um mediador circunstancial; é um sujeito histórico do Sul Global, cuja trajetória combina legitimidade popular, experiência de governo e capacidade de articulação transversal. Ao longo de décadas, construiu uma política externa orientada à multipolaridade, ao fortalecimento do multilateralismo e à defesa da autodeterminação dos povos, tornando-se referência para países que recusam a submissão automática às grandes potências.
Essa coerência se expressa de forma clara no caso palestino. Ao nomear o que ocorre em Gaza como genocídio, Lula rompeu com o vocabulário eufemístico que sustenta a inação internacional e assumiu custos diplomáticos por isso. Esse gesto consolidou sua autoridade moral e ampliou seu soft power, sobretudo no Sul Global. É precisamente esse capital simbólico que o “Conselho da Paz” tenta capturar: deslocar Lula de sua posição histórica para transformá-lo em fiador de uma arquitetura que marginaliza a ONU e subordina a Palestina a uma tutela externa.
A armadilha é evidente. Aceitar o convite, tal como formulado, implicaria contradição com a trajetória que sustenta a liderança de Lula; recusar sem estratégia abriria espaço para enquadramentos e pressões. A força de Lula está justamente em evitar essa binariedade. Seu papel histórico lhe permite inverter o jogo, reafirmando que não há paz legítima fora da ONU nem reconstrução possível sem soberania Palestina. Ao fazê-lo, Lula não apenas protege o Brasil de uma armadilha política, como reafirma sua função no mundo: a de líder capaz de recolocar o direito, a política e a dignidade dos povos no centro de uma ordem internacional em crise.
Correlação de forças e cenário preditivo
A correlação de forças que molda o convite a Lula é objetiva. Os Estados Unidos tentam recompor capacidade de comando global em um contexto de erosão hegemônica; Israel busca consolidar o pós-guerra de Gaza como rearranjo político irreversível; e o Sul Global, ainda que fragmentado, dispõe hoje de maior margem de manobra, impulsionada pelo peso econômico da Ásia, pela densidade dos BRICS e pela crise de legitimidade do unilateralismo ocidental.
O “Conselho da Paz” sintetiza esse momento. Ele não responde apenas a Gaza, mas inaugura um modelo de governança de exceção, concebido para contornar o multilateralismo, reduzir custos jurídicos e acelerar decisões favoráveis aos interesses imperiais. Ao endossar uma autoridade transitória externa à ONU e autorizar uma força sob comando “aceitável” a esse arranjo, a resolução que sustenta o plano institucionaliza uma zona cinzenta onde o direito perde centralidade e a força ganha verniz administrativo.
No curto prazo, três movimentos são previsíveis. O primeiro é a intensificação da pressão por adesões ao conselho, combinando sedução diplomática, chantagem econômica e narrativa moralista de “paz e reconstrução”. O segundo é o aprofundamento do ataque à ONU e às agências que preservam a legitimidade Palestina, abrindo espaço para estruturas tuteladas. O terceiro é o enquadramento de governos resistentes como obstáculos à paz, com uso de guerra informacional e coerção seletiva. Para o Brasil, o risco não está apenas na decisão formal, mas na captura de sua reação.
Essa correlação, contudo, também abre oportunidade. Há fissuras no Ocidente, desconforto crescente com a privatização da governança global e repúdio internacional ao massacre em Gaza. Se operar com precisão, o Brasil pode deslocar o eixo do debate, transformar o convite em teste de legitimidade e recolocar a ONU e a autodeterminação Palestina no centro. O objetivo não é apenas evitar custos, mas converter a crise em vitória estratégica, afirmando o Brasil como ator capaz de produzir ordem política em um mundo governado pelo caos.
Os riscos para o Brasil: aceitar, recusar ou inverter o jogo
O convite de Trump foi desenhado para capturar o gesto brasileiro, qualquer que ele seja. O risco central não está apenas na decisão formal, mas no enquadramento político posterior. Trata-se de uma armadilha clássica: transformar uma escolha soberana em custo inevitável, seja pela adesão, seja pela recusa, deslocando o debate do direito internacional para uma disputa narrativa controlada pelos Estados Unidos.
Aceitar o Conselho tal como proposto é a opção mais onerosa. Significaria legitimar uma arquitetura que marginaliza a ONU e subordina a reconstrução de Gaza a uma tutela externa, corroendo a coerência histórica da política externa brasileira e o capital simbólico de Lula. A tese de “entrar para moderar” não se sustenta diante da assimetria de comando: o Brasil seria convertido em avalista de uma estrutura concebida por outros, com custos domésticos e internacionais difíceis de reverter.
A recusa frontal, embora coerente no princípio, também carrega riscos se não for acompanhada de engenharia diplomática. Em um ambiente de guerra informacional, ela pode ser enquadrada como obstrução à paz, abrindo espaço para pressões seletivas e tentativas de isolamento. O dilema, portanto, é falso: aceitar compromete princípios; recusar sem estratégia compromete margem de manobra.
A única saída racional é inverter o jogo. O Brasil precisa transformar o convite em um teste público de legitimidade, condicionando qualquer participação a critérios claros: centralidade da ONU, protagonismo palestino e vínculo entre reconstrução e autodeterminação. Assim, o “sim” deixa de ser adesão e passa a ser exigência, e o “não” deixa de ser isolamento para se tornar consequência da recusa imperial em respeitar o direito internacional. Esse movimento protege a soberania brasileira e impede que Gaza se torne precedente para futuras tutelas em outras regiões do mundo.
O caminho correto: como evitar a armadilha e sair maior
Evitar a armadilha exige iniciativa, não defensiva. O Brasil precisa converter o convite em teste público de legitimidade, deslocando o eixo do debate para onde ele deve estar: ONU, direito internacional e autodeterminação dos povos. Não se trata de aceitar ou recusar um conselho específico, mas de reformular as condições de possibilidade de qualquer iniciativa de paz.
O primeiro passo é condicionar publicamente. O Brasil afirma disposição para atuar pela paz desde que três critérios sejam atendidos: centralidade formal da ONU como autoridade política e operacional; protagonismo palestino com mandato reconhecido; e vínculo indissociável entre cessar-fogo, reconstrução e direitos políticos. Essa resposta impede a captura do gesto brasileiro: se os critérios são aceitos, o arranjo deixa de ser tutelar; se são rejeitados, a ilegitimidade do conselho fica exposta.
O segundo passo é internacionalizar a posição. O Itamaraty deve articular, de forma discreta e coordenada, uma coalizão mínima com países do Sul Global e atores europeus desconfortáveis com o bypass da ONU. O objetivo não é confronto ideológico, mas blindagem política: quando a exigência de legalidade é compartilhada, o custo de coerção aumenta e a narrativa de isolamento perde eficácia.
O terceiro passo é ofensivo e estruturante. O Brasil deve propor que a reconstrução de Gaza seja conduzida sob mandato claro da ONU, com transparência, auditoria e participação dos diretamente afetados. Ao fazer isso, Lula conecta o episódio a uma agenda histórica: a reforma da governança global. Em vez de legitimar conselhos ad hoc, o Brasil oferece uma alternativa concreta para resgatar a política e o direito onde foram substituídos pela força. Assim, o país não apenas evita a armadilha, como sai maior: preserva coerência, amplia soft power e afirma liderança em um mundo que carece de legitimidade.
Uma bússola para o Itamaraty
Para atravessar este episódio sem custos estratégicos e sair fortalecido, o Itamaraty precisa operar com método, disciplina narrativa e tempo político. A primeira diretriz é controlar o enquadramento. O convite deve ser tratado como oportunidade de reafirmar princípios universais, como a centralidade da ONU, a legalidade internacional e a autodeterminação dos povos, e não como adesão a um conselho específico. Toda comunicação oficial deve partir desse tripé, blindando o Brasil contra enquadramentos oportunistas.
A segunda diretriz é ancorar a posição em multilateralismo ativo. Antes de qualquer decisão pública, o Brasil deve articular consultas com países do Sul Global e atores europeus comprometidos com a preservação da ONU. O objetivo é transformar uma posição nacional em referência compartilhada. Quando a defesa da legalidade deixa de ser isolada, o custo de coerção aumenta e a margem de pressão diminui.
A terceira diretriz é converter princípio em proposta concreta. O Brasil deve defender que a reconstrução de Gaza ocorra sob mandato claro da ONU, com participação palestina efetiva, transparência de recursos e vínculo indissociável entre cessar-fogo, reconstrução e direitos políticos. Essa postura desloca o Brasil da reação para a formulação, afirmando-o como ator capaz de oferecer soluções sistêmicas.
Por fim, é essencial unidade interna de discurso. O governo deve falar a uma só voz, com mensagens curtas e repetíveis. O Brasil é a favor da paz, mas não de qualquer paz. É a favor da reconstrução, mas não da tutela. É a favor do multilateralismo, não de conselhos privados. Seguindo essa bússola, o Brasil não apenas evita a armadilha, como transforma o episódio em afirmação histórica, consolidando Lula como liderança global de soft power e reafirmando a vocação brasileira de reconstruir a política onde ela foi deliberadamente corroída.
Por Reynaldo Aragon
Acre in Foco – Cobertura das Últimas Notícias do Acre Acre in Foco traz as últimas notícias do Acre, com cobertura atualizada sobre política, segurança, saúde, cultura e eventos locais. Fique por dentro de tudo
