No Brasil, há tipos de networking. Um acontece em seminários, cafés institucionais, reuniões formais com ata, pauta e transparência pública. O segundo acontece longe das câmeras, ou pelo menos longe das câmeras oficiais. Taças de Petrus, copos de Macallan, caviar servido como se fosse amendoim de boteco e celulares proibidos na porta. O resto é silêncio e memória seletiva.
Reportagem de Alexa Salomão e Joana Cunha, na Folha de S.Paulo, mostra que o Ministério Público junto ao TCU pediu investigação sobre a presença de autoridades em festas promovidas por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em Trancoso (BA).
“Esses eventos, denominados Cine Trancoso, teriam contado com a presença de altas autoridades dos Três Poderes da República, incluindo integrantes do Poder Executivo do governo anterior, membros do mercado financeiro, da política e do meio jurídico”, diz o MP.
O Brasil tem uma tradição curiosa: quando dinheiro, poder e intimidade se misturam, a fronteira entre o público e o privado vira linha pontilhada. Oficialmente, tudo é vida pessoal. Extraoficialmente, todo mundo sabe que relações são construídas ali. E relações, no mundo real, viram decisões, influências, prioridades.
“O Vorcaro encheu a minha casa de putas. Ele, amigos e muitas putas! Desde antes de ontem, reclamações por causa do som acima do permitido. Ontem foi pior”, escreveu a proprietária da casa alugada por ele ao corretor do imóvel no dia 5 de outubro de 2022. “Levou 20 putas para a casa que ele alugava com a esposa e filhos”.
Há relatos de festas luxuosas, mulheres estrangeiras trazidas de jatinho, encontros paralelos a eventos como a Semana do Brasil em Nova York e o chamado “Gilmarpalooza” em Lisboa. A isso, se soma a doação de um apartamento de quase R$ 4,4 milhões a uma jovem identificada como “sugar baby” de Vorcaro, que já havia vindo a público.
A defesa do empresário diz que há juízo moral e tentativa de difamação. É direito dela sustentar isso. Mas a pergunta incômoda não é sobre moralidade sexual. É sobre o pudor republicano.
Quando executivos de instituições públicas, políticos de diferentes partidos e autoridades frequentam ambientes patrocinados por um banqueiro que depende de decisões regulatórias, judiciais e políticas, estamos diante de vida privada ou de lobby pornográfico? De confraternização ou de investimento relacional? De amizade ou de hedge político?
O temor quanto à divulgação de imagens gravadas reforça a influência do anfitrião. Em última instância, ele conseguiu o que queria: ter autoridades na mão.
Aí a conversa deixa de ser sobre festa e passa a ser sobre captura de poder. Porque o que está em jogo não é quem bebeu o quê, nem com quem transou — sendo adulto, cada um é responsável por sua vida. É se o Brasil aceita que a promiscuidade entre capital financeiro e agentes públicos seja tratada como folclore, fofoca ou apenas “after”.
O Banco Master não virou problema por causa de festinhas, mas porque recursos públicos entram na equação e o país descobre que, por trás das planilhas, havia sacanagem com grana de investidores individuais, de aposentadorias de servidores públicos, do contribuinte.
Mais uma vez, não se trata de puritanismo. Trata-se de transparência. Em democracias maduras, quem ocupa cargo público deve evitar até a aparência de conflito de interesses. Aqui, muitas vezes, a aparência vira piada até se tornar crise.
Talvez o Brasil precise decidir se quer separar definitivamente negócios de camarotes. Ou se continuará tratando promiscuidade política como se fosse apenas mais um “job” na agenda social da elite.
Por Leonardo Sakamoto
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