Cláusula de barreira exigirá mais votos, presença em mais estados e bancadas maiores para garantir fundo partidário e tempo de propaganda.

Cláusula de barreira exigirá mais votos, presença em mais estados e bancadas maiores para garantir fundo partidário e tempo de propaganda.

A eleição para deputado federal será, em 2026, uma prova de capilaridade nacional para partidos e federações. Mais do que eleger bancadas, as siglas terão de demonstrar força distribuída pelo país para superar a nova etapa da cláusula de desempenho (ou cláusula de barreira), mecanismo que condiciona o acesso ao Fundo Partidário e ao tempo gratuito de propaganda no rádio e na televisão.

A regra ficará mais dura em relação a 2022. Na última eleição geral, partidos e federações precisavam obter pelo menos 2% dos votos válidos nacionais para deputado federal, distribuídos em ao menos nove Estados, com mínimo de 1% em cada um deles; ou eleger 11 deputados federais, também em pelo menos nove unidades da Federação.

Em 2026, o corte sobe para 2,5% dos votos válidos nacionais, com mínimo de 1,5% em nove Estados; ou eleição de 13 deputados federais distribuídos por nove unidades federativas. Em 2030, a régua subirá novamente: serão exigidos 3% dos votos válidos nacionais, com ao menos 2% em nove Estados, ou 15 deputados federais em nove unidades.

Mapa dos votos

O novo patamar muda a lógica da disputa proporcional. Partidos com votação concentrada, bancadas pequenas ou dependência de poucos puxadores de votos terão de ampliar sua presença territorial. A cláusula não mede apenas o tamanho da bancada, mas também a distribuição dos votos e dos eleitos pelo país.

Mudanças na cláusula de barreira para as eleições de 2026.

Mudanças na cláusula de barreira para as eleições de 2026.Arte Congresso em Foco

 

A fotografia partidária também mudou desde 2022. Fusões, incorporações e novas federações alteraram o ponto de partida de algumas siglas para 2026. O PSC foi incorporado pelo Podemos; o Pros, pelo Solidariedade; PTB e Patriota se fundiram para formar o PRD; o PMN passou a se chamar Mobiliza; o PTC virou Agir; e o PMB foi autorizado pelo TSE a passar a se chamar Democrata. Não confundir com o antigo Democratas (DEM), que DEM já havia se fundido há quatro anos ao PSL para formar o União Brasil. As informações são do Congresso em Foco.

No resultado original de 2022, segundo levantamento divulgado pelo TSE, apenas 12 partidos ou federações superaram a cláusula de desempenho: as federações PT-PCdoB-PV, PSDB-Cidadania e Psol-Rede, além de MDB, PDT, PL, Podemos, PP, PSB, PSD, Republicanos e União Brasil. Desde então, fusões, incorporações e federações mudaram a composição do sistema partidário e a base de cálculo político para 2026.

 

Como foi o desempenho dos partidos na eleição para a Câmara em 2022.

Como foi o desempenho dos partidos na eleição para a Câmara em 2022.Arte Congresso em Foco

A peneira que divide o sistema partidário

A cláusula de desempenho nasceu como resposta à fragmentação partidária, mas nunca foi consensual. Para seus defensores, ela força partidos a terem base social real, presença nacional e identidade programática, reduzindo o espaço para legendas sem densidade eleitoral. Para os críticos, o filtro favorece siglas grandes, dificulta a sobrevivência de partidos menores e pode empobrecer o pluralismo político.

O debate acompanha a regra desde sua formulação. Em 2015, durante audiência pública na Câmara, o então presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Dias Toffoli, defendeu a criação de uma cláusula de desempenho e afirmou que a fragmentação poderia piorar a cada eleição caso a legislação não fosse alterada. “É mais fácil criar um partido do que apresentar um projeto de iniciativa popular”, resumiu Toffoli na ocasião.

Na Câmara, defensores da medida apresentaram a cláusula como forma de combater partidos criados apenas para negociar apoio, tempo de TV e recursos públicos.

Do outro lado, parlamentares de partidos menores criticaram a medida como restrição à diversidade política, alegando que o mecanismo acaba com o pluralismo político.

Federações ganham peso

O endurecimento da regra ajuda a explicar o crescimento das federações partidárias. Diferentemente das antigas coligações proporcionais, as federações obrigam os partidos a atuar juntos por pelo menos quatro anos. Para efeito da cláusula de desempenho, os votos e deputados das legendas federadas são somados.

Hoje, há cinco federações registradas no Tribunal Superior Eleitoral: União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas; Renovação Solidária, formada por PRD e Solidariedade; Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV; PSDB-Cidadania; e Psol-Rede.

Esse arranjo é decisivo para siglas menores. PCdoB, PV, Cidadania e Rede disputam dentro de federações que ampliam sua capacidade de superar a cláusula. PRD e Solidariedade também se juntaram para enfrentar 2026 em bloco. No outro extremo, União Brasil e Progressistas, que já tinham força separadamente, passam a competir como uma federação de grande porte.

A lógica é simples: sozinho, um partido pequeno pode não atingir a votação mínima nacional nem eleger bancada suficiente em nove Estados. Em federação, passa a somar votos, cadeiras, estrutura e tempo político com outra legenda. A união, porém, tem custo: os partidos federados precisam atuar de forma conjunta durante todo o ciclo político.

O custo de ficar fora

O partido que não superar a cláusula não é extinto. Pode continuar registrado, lançar candidatos e disputar eleições. O prejuízo está no funcionamento: a sigla deixa de ter acesso ao Fundo Partidário e ao tempo gratuito de propaganda no rádio e na televisão. A sigla também perde o direito de ter uma liderança partidária na Câmara. Pode indicar um representante, mas com prerrogativas limitadas no processo legislativo, o que reduz a possibilidades de influenciar na pauta legislativa.

O impacto é prático. Sem fundo partidário, ficam comprometidas despesas como manutenção de sede, passagens, atividades administrativas, formação política e organização nacional. Sem tempo de rádio e TV, o partido perde visibilidade eleitoral e poder de negociação em alianças.

Perda de oxigênio

Na prática, a cláusula não mata formalmente os partidos, mas tira deles parte do oxigênio político. Uma legenda sem recursos públicos permanentes, sem propaganda gratuita e com bancada vulnerável tende a perder competitividade, atrair menos candidatos e ter menor capacidade de articulação nacional.

Há ainda reflexo sobre a fidelidade partidária. A Emenda Constitucional 97 assegura aos eleitos por partidos que não preencham os requisitos da cláusula o direito de manter o mandato e se filiar, sem perda do cargo, a outra legenda que tenha superado o desempenho mínimo. Isso amplia a vulnerabilidade das siglas que ficarem abaixo da linha de corte.

A eleição de 2026, portanto, será um teste de escala. Para partidos grandes, a tarefa será preservar margem. Para médios, evitar concentração regional. Para pequenos, a disputa exigirá crescimento nacional ou sobrevivência por meio de federações, fusões e incorporações. A cláusula de barreira não define apenas quem terá cadeira na Câmara, mas quem terá estrutura para continuar competindo nos quatro anos seguintes.

Veja quais partidos correm mais risco em 2026

A chamada cláusula de barreira ou de desempenho,  com exigências mais duras este ano, pode ser superada por dois caminhos. O primeiro é pela votação: o partido ou federação precisa alcançar 2,5% dos votos válidos nacionais para deputado federal, distribuídos em pelo menos nove Estados, com mínimo de 1,5% em cada um deles. O segundo é pela bancada: eleger ao menos 13 deputados federais em nove Estados.

A regra é mais dura do que a aplicada em 2022, quando bastavam 2% dos votos válidos nacionais, com 1% em nove Estados, ou 11 deputados federais distribuídos por nove unidades da Federação. O aumento da exigência torna mais difícil a vida de partidos com votação concentrada, bancadas pequenas ou dependência de poucos puxadores de voto.

Quem está em situação mais difícil

No grupo de maior risco estão Agir, Avante, DC, Democrata (antigo PMB), Mobiliza, Novo, PCB, PCO, PRTB, PSTU e UP. São partidos que, se repetirem em 2026 o desempenho de 2022, não atingirão a cláusula nem pela votação nacional nem pela eleição de deputados.

A maioria não elegeu deputado federal na última eleição. Avante e Novo conseguiram cadeiras, mas ficaram distantes da nova régua. O Avante elegeu sete deputados em três Estados. Para passar pela via parlamentar em 2026, teria de chegar a 13 deputados e ampliar sua presença para nove unidades federativas. O Novo elegeu três deputados em três Estados e também precisará de crescimento expressivo.

Termômetro partidário: os desafios de cada partido.

Termômetro partidário: os desafios de cada partido.Arte Congresso em Foco

Federação em situação-limite

A Federação Renovação Solidária, formada por PRD e Solidariedade, aparece em posição delicada. As duas siglas passaram por fusões e incorporações depois de 2022 e, juntas, partem de uma base consolidada próxima ao piso exigido. Ainda assim, precisarão ampliar bancada e presença territorial para superar a cláusula com segurança.

A situação da federação é diferente da dos partidos de alto risco, porque ela não parte de bancada inexistente ou muito reduzida. O problema é que a margem é estreita: para atravessar a cláusula pela via parlamentar, será necessário alcançar ao menos 13 deputados distribuídos por nove unidades federativas. A alternativa é cumprir a exigência pela votação nacional.

Quem ainda corre risco

Além dos partidos em alto risco, há siglas e federações que não estão na pior situação, mas também não têm folga. É o caso de Podemos, PSB, Federação PSDB-Cidadania, PDT e Federação Psol-Rede.

O Podemos melhorou sua posição depois de incorporar o PSC, mas precisa confirmar esse reforço nas urnas. O PSB e a Federação PSDB-Cidadania aparecem acima da linha de corte pela via da bancada, mas com margem territorial estreita: ambos dependeriam de manter presença em pelo menos nove Estados.

O PDT e a Federação Psol-Rede enfrentam outro problema: a distribuição dos eleitos. O PDT elegeu 17 deputados em 2022, número superior ao mínimo exigido em 2026, mas em apenas oito Estados. Pela via da bancada, faltaria uma unidade da Federação. A Federação Psol-Rede elegeu 14 deputados, também acima do piso numérico, mas concentrados em cinco unidades federativas. Para passar por esse caminho, teria de espalhar seus eleitos por mais quatro.

O que está em jogo

A cláusula de barreira não extingue o partido. A sigla pode continuar registrada, lançar candidatos e disputar eleições. O prejuízo está no funcionamento político e financeiro. Quem não atinge o desempenho mínimo perde acesso ao Fundo Partidário e ao tempo gratuito de propaganda no rádio e na televisão.

Na prática, isso reduz a capacidade de manter estrutura nacional, financiar atividades partidárias, dar visibilidade a candidatos e negociar alianças. Também enfraquece a presença institucional da sigla na Câmara, que passa a atuar com prerrogativas reduzidas em relação aos partidos que superam a cláusula.

Por isso, a eleição para deputado federal será decisiva. Para os partidos grandes, o desafio é preservar a vantagem. Para os médios, é evitar concentração regional. Para os pequenos, será preciso crescer em escala nacional. Em 2026, não bastará eleger alguns nomes fortes: será necessário provar presença em diferentes Estados.

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