Tokenização: O uso político de negros, gays e travestis pela extrema direita bolsonarista

Tokenização: O uso político de negros, gays e travestis pela extrema direita bolsonarista

O termo descreve o processo em que indivíduos pertencentes a grupos historicamente marginalizados passam a ser usados como símbolos de validação dentro de estruturas que precisam aparentar diversidade sem alterar sua lógica central

Algumas das vozes mais celebradas pela extrema direita hoje pertencem justamente aos grupos que ela historicamente ajudou a marginalizar. Negros que atacam pautas antirracistas, gays que transformam a própria comunidade em alvo permanente de escárnio, travestis que passam a reproduzir discursos que legitimam violências sofridas diariamente por pessoas trans, religiosos de matriz africana que relativizam o avanço da intolerância religiosa para serem aceitos em ambientes que antes os rejeitavam. O fenômeno cresce diante dos olhos do público porque produz um espetáculo irresistível, a aparente prova de que preconceitos estruturais seriam exageros inventados pela esquerda. Existe, porém, uma engrenagem muito mais sofisticada funcionando por trás dessa encenação contemporânea de pluralidade.A tokenização nasce exatamente nesse ponto. O termo descreve o processo em que indivíduos pertencentes a grupos historicamente marginalizados passam a ser usados como símbolos de validação dentro de estruturas que precisam aparentar diversidade sem alterar sua lógica central. A presença dessas figuras opera como um salvo-conduto moral. O negro conveniente, o gay conveniente, a travesti conveniente, o religioso conveniente se tornam peças valiosas porque ajudam a sustentar uma narrativa extremamente funcional, “como poderia haver preconceito aqui se temos um deles ao nosso lado?”. A estrutura continua intacta, o verniz muda. A desigualdade permanece, apenas aprende a posar para fotografia.

A dinâmica se torna ainda mais poderosa porque ela funciona perfeitamente dentro da lógica das redes sociais e da economia da atenção. O algoritmo premia ruptura, choque e contradição. Uma pessoa negra denunciando racismo dificilmente provoca o mesmo frenesi digital que um negro debochando do movimento negro. Um gay defendendo direitos LGBTQIA+ já é esperado, um gay atacando sua própria comunidade vira manchete, corte viral, entrevista, trending topic. A travesti que critica pessoas trans recebe imediatamente o fascínio de quem procura uma exceção para invalidar o todo. Essas figuras crescem rápido porque oferecem ao público exatamente aquilo que o entretenimento político mais deseja, a sensação de assistir alguém destruir a própria casa com um sorriso no rosto.

Esse sistema se retroalimenta porque todos os lados envolvidos entendem rapidamente o valor dessa troca. A extrema direita necessita dessas figuras como escudo moral, precisa delas para suavizar a brutalidade de discursos historicamente associados ao racismo, à homofobia, à transfobia e à intolerância religiosa. E muitas dessas figuras percebem que existe um espaço extremamente lucrativo esperando por elas. Há pouca concorrência naquele território, justamente porque a maioria das pessoas pertencentes a esses grupos entende o peso histórico dessas estruturas. Quem decide atravessar essa fronteira encontra atenção imediata, dinheiro, seguidores, convites, palco, status e projeção acelerada. A coerência vira detalhe dispensável quando o mercado recompensa muito mais a utilidade simbólica do que a consistência intelectual.

Foi justamente esse mecanismo de busca por reconhecimento que Frantz Fanon tentou compreender ao analisar os efeitos psicológicos da colonização. Fanon entendia que o olhar dominante possui um poder devastador sobre a construção da identidade. O desejo de aceitação deixa de ser apenas social e passa a tocar dimensões profundas da existência humana. Ser acolhido por quem antes rejeitava produz sensação de triunfo, pertencimento e validação. Em ambientes marcados pela homogeneidade ideológica, a exceção se transforma em ativo precioso. O negro que legitima discursos conservadores radicais, o gay que ridiculariza pautas LGBTQIA+, a travesti que desumaniza pessoas trans deixam de ser apenas indivíduos, tornam-se capital simbólico. São exibidos como prova de abertura, pluralidade e tolerância. Quanto mais rara a figura, maior seu valor político e midiático. É nesse ponto que muitas dessas figuras passam a operar quase como tradutoras emocionais de uma estrutura que historicamente as violentou. O aplauso vindo do antigo agressor ganha peso simbólico suficiente para silenciar contradições que, vistas de fora, parecem gritantes.

Existe também uma crueldade silenciosa nessa relação. A aceitação oferecida por essas estruturas costuma durar exatamente o tempo da utilidade simbólica dessas figuras. Enquanto servem como troféus discursivos, recebem espaço, aplauso e proteção. Quando deixam de cumprir essa função, o pertencimento desaparece com velocidade brutal. O mesmo ambiente que celebra um negro por atacar movimentos antirracistas dificilmente hesita em recorrer ao racismo quando esse personagem deixa de ser funcional. O mesmo vale para gays, travestis e religiosos. A lógica nunca foi inclusão genuína, sempre foi utilidade narrativa. O abraço oferecido pelo poder costuma vir acompanhado de uma coleira invisível.

O problema central dessa discussão jamais foi a existência de divergência dentro de grupos sociais. Democracias maduras convivem naturalmente com pluralidade, conflito e dissidência. A questão começa quando estruturas de poder aprendem a usar representatividade como mecanismo de neutralização crítica. A diversidade exibida diante das câmeras passa a funcionar como decoração moral de sistemas que continuam produzindo exclusão fora do enquadramento. E talvez seja essa a grande tragédia política do nosso tempo, a transformação de corpos historicamente marginalizados em álibis vivos de estruturas que continuam, silenciosamente, trabalhando contra eles.

Por Fábio Santos

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