El Niño deixa setor agrícola em alerta sobre aumento de custos

El Niño deixa setor agrícola em alerta sobre aumento de custos

Especialistas alertam sobre impactos de eventos climáticos nos preços dos alimentos, e lembram que taxa de juros elevada e cenário fiscal conturbado também devem pesar nos custos do crédito ao produtor

A confirmação de um novo Super El Niño ainda neste ano tem deixado os produtores rurais mais preocupados com os efeitos de possíveis eventos climáticos extremos na Safra 2026/2027. A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) prevê que há mais de 60% de chances de chuvas muito fortes entre os próximos meses de novembro deste ano e janeiro de 2027. Os riscos para a produção, consequentemente, geram receio para o cenário econômico, com a possibilidade do aumento de pressões nos preços de alimentos.

Com a possibilidade de um calor excessivo e período maior de seca o café pode ser um dos produtos mais afetados pelo Super El Niño. A depender das condições, os eventos podem afetar diretamente a produtividade do setor e a qualidade dos grãos. Outro item que também pode sofrer mais é o milho, sensível a períodos de escassez de chuva, o que pode resultar em prejuízos para a segunda safrinha.

Por outro lado, as chuvas mais intensas no Sul e no Sudeste podem gerar impactos danosos no preço do tradicional almoço brasileiro: o arroz com feijão. Ambas as culturas são sensíveis a enchentes e a irregularidades pluviométricas. Esse cenário pode trazer oscilações rápidas de oferta e preço, também gerando problemas logísticos mais intensos.

Segundo a diretora-executiva da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Patrícia Arantes, os efeitos ainda dependem da região produtiva e da cultura realizada. Por conta disso, os impactos reais sobre o agronegócio são bem mais incertos e ainda foram pouco precificados pelo mercado e pelo setor. “Contudo, para o café, há necessidade de atenção, pois pode afetar parte da produção brasileira”, destaca.

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) indicou, recentemente, a possibilidade de um déficit global de 22 milhões de toneladas na próxima safra de milho e de 5 milhões de toneladas no balanço de trigo. Ela também projeta momentos de clima mais desafiador, que podem gerar restrição da oferta de grãos no mercado internacional.

Nesse contexto, a diretora da SRB avalia que há culturas que podem se beneficiar com o El Niño, como o açúcar, por atingir outros países produtores, como a Índia — uma das principais concorrentes do Brasil nesse segmento. “Além disso, nenhuma das grandes commodities negociadas em bolsa, como soja, milho, algodão, açúcar, etanol e proteínas, tem o prêmio embutido nos contratos futuros, então será importante acompanhar os próximos meses”, avalia.

Risco ao crédito

A preocupação sobre os efeitos climáticos adversos também podem causar impactos no volume de contratação de crédito rural. Na semana passada, o governo federal lançou o Plano Safra 2026/2027, que prevê um volume recorde de R$ 525,1 bilhões em crédito para médios e grandes produtores rurais. O montante representa um acréscimo tímido de 1,7% em relação ao ciclo anterior e bastante aquém do avanço de 13% na safra anterior.

Nesse cenário, outras instituições e cooperativas também ficaram mais comedidas ao apresentar planos para a próxima safra. Apesar de um crescimento de 18% em relação ao período anterior, o programa do Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil (Sicoob), que prevê disponibilizar R$ 70 bilhões em crédito rural nos próximos doze meses, poderia ter sido ainda maior não fosse a preocupação com os riscos climáticos, como explicou o gerente institucional de Agronegócio do Sicoob, Rafael Santana.

“É um crescimento percentual bem robusto, mas já contando que pode ter alguns problemas em algumas áreas. Então, nesse modelo, o avanço poderia ter sido até maior. Nas primeiras análises que nós fizemos, poderíamos liberar mais de R$ 70 bilhões. Colocamos em R$ 70 bilhões já incluindo esses pontos climáticos que podem ter nesta safra”, destacou Santana.

A apresentação do programa do Sicoob para a Safra 2026/27 ocorreu na manhã de ontem, na sede da associação. No ciclo anterior, o objetivo foi praticamente alcançado, com a liberação de R$ 59,5 bilhões e uma meta de R$ 60 bilhões. Com um crescimento de 6,88% ante o ciclo anterior, a disponibilização de crédito rural pelo sistema chegou a cerca de 194,7 mil operações realizadas em todo o Brasil durante os últimos 12 meses.

Especialistas do Sicoob destacaram que o alto nível de inadimplência preocupa o segmento, mas que esse cenário já é levado em consideração no planejamento do sistema de cooperativas. A taxa de juros em patamar elevado é um dos potencializadores dessa alta do endividamento.

“Os juros altos significam despesa financeira para o tomador e a gente sabe que não são todos os segmento que possuem margens elevadas para se manterem em juros elevados, então ele é, sim, um inibidor e, por mais que tenha caído, a gente considera uma taxa de juros elevada, mas o produtor precisa dessas linhas”, disse o superintendente Financeiro do Sicoob, Tobias Fragoso.

Aprovado na Câmara dos Deputados no mês passado e sob análise do Senado, o Projeto de Lei (PL) 5122/2023, cria uma linha especial de refinanciamento para produtores atingidos por eventos climáticos, como as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, e por impactos econômicos de conflitos internacionais. Os recursos para esse programa viriam do Fundo Social do Pré-Sal, de superávits de fundos supervisionados pela Fazenda e de outras fontes definidas pelo Executivo. Com informações do Estado de Minas

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