Coletes à prova de realidade

Coletes à prova de realidade

As fantasias da extrema-direita são a cada dia mais ridículas. E seriam somente autorridicularização não comovessem tantos incautos. Flávio Bolsonaro (PL) e Renan Santos (Missão) vestem colete à prova de balas em seus comícios. Alegam receber ameaças. Pelo histórico da turba que inspiram e que neles se inspira, mais justo seria que distribuíssem coletes aos rivais.

Forjar mentiras, disseminar medo, estimular violência são rotinas desses usuários de colete – bem mais Flávio do que Renan, por enquanto, registre-se. A proteção contra ataques imaginários foi adotada por Jair Bolsonaro depois da facada que levou em Juiz de Fora, consequência da insanidade do agressor e da agressividade que ele próprio apregoava, e que, ademais, ainda aguarda esclarecimentos mais satisfatórios. A pesada vestimenta desde então serve como peça adicional à estratégia de vitimização da família, como é comum aos covardes.

A manada que não toma vacina e empunha a bandeira dos Estados Unidos sensibiliza-se com o intrépido candidato que sobe num carro de som para lhes falar, ainda que sob ameaça de atentado. É o momento em que o covarde passa-se por corajoso.

Atentado para valer mesmo – neste Brasil que tantos enxergam como polarizado, mesmo que “polarização” não seja o termo adequado quando uma das pontas escapa à régua democrática – só mesmo o que matou Marielle Franco. Obra da abjeta direita miliciana fluminense contra uma liderança de esquerda, periférica, negra e bissexual. Marielle não usava colete.

Também não usava colete Marcelo Aloizio de Arruda, dirigente e tesoureiro do PT em Foz do Iguaçu (PR). Em 9 de julho de 2022, ele comemorava seu 50º aniversário numa festa com decoração e temática do PT e de Lula. Durante a noite, Jorge José da Rocha Guaranho, policial penal federal e apoiador de Jair Bolsonaro, foi ao local e matou Arruda a tiros.

Nova indumentária da moda fascistoide, o colete à prova de balas compõe o universo fictício do qual essa turma se vale para compor sua imagem belicosa. Arminha com os dedos da mão, colete a cobrir o tórax, e sempre a pairar no ar a possibilidade de um ato que os vitime.

O momento pede repetição de um trecho que já preencheu esta coluna:

Psicopatas são ágeis em manipular a narrativa emocional, inclusive fingindo-se de vítimas. Aparentam arrependimento ou fragilidade para desviar-se da culpa. Vitimizam-se não apenas para gerar empatia, mas também confusão no interlocutor. Sua estratégia é inverter os papéis, acusando quem os confronta de perseguição ou injustiça. É Jair Bolsonaro esculpido em Carrara.

A coluna buscou os traços do psicopata que se vitimiza quando acuado. Encontramo-los em estudos de Wheeler, Book e Costello, de 2009, sobre percepção de vulnerabilidade; e de Babiak e Hare, de 2006, acerca de bullying e manipulação social.

Quando encurralados, psicopatas não agem como vítimas comuns. Em vez disso, reagem de maneira estratégica: podem, além de se vitimizar, manipular narrativas, usar bullying emocional ou verbal ou alternar entre submissão aparente e intimidação aberta. Essa postura tem base em déficits cognitivo-emocionais e padrões de reforço social que valorizam a dominação e o controle do ambiente.

Por Paulo Henrique Arantes

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