Cientista político afirma que parte do eleitorado só começa a pensar no voto perto da eleição e questiona levantamentos feitos com muita antecedência
O cientista político e especialista em pesquisas de opinião Marcos Coimbra chamou a atenção para um aspecto pouco discutido dos levantamentos eleitorais: a possibilidade de o próprio questionário induzir pessoas ainda desinteressadas pela eleição a declarar uma preferência que, na prática, não está formada. Para ele, pesquisas realizadas com grande antecedência precisam ser interpretadas com cautela justamente porque uma parcela expressiva do eleitorado ainda não entrou no processo efetivo de decisão do voto.
A avaliação foi feita por Coimbra durante entrevista ao programa Boa Noite 247, da TV 247. Em sua análise, o pesquisador sustentou que o baixo interesse cotidiano de grande parte da população pela política torna problemática a tentativa de interpretar, muitos meses antes da votação, as respostas de todos os entrevistados como posições eleitorais consolidadas.
“Hoje nós estamos fazendo uma pesquisa e forçando cidadãos que não têm nenhuma motivação, nenhum interesse, nenhuma informação a dizer em quem votariam se a eleição fosse hoje. Mas a eleição não é hoje”, afirmou.
‘Não é independente, é indiferente’
Coimbra questionou particularmente uma categoria recorrente nas análises eleitorais: a do chamado eleitor “independente”, aquele que não estaria identificado de maneira firme com nenhum dos principais campos políticos.
Na visão do cientista político, parte significativa desse contingente poderia ser descrita de outra maneira. Em vez de estar avaliando racionalmente as diferentes candidaturas para decidir entre elas, muitos brasileiros simplesmente ainda não estariam interessados na disputa.
“Não é um eleitor independente, é um eleitor indiferente”, afirmou.
A diferença entre as duas categorias é relevante. O independente seria alguém que acompanha a eleição, mas não possui fidelidade partidária ou preferência consolidada. Já o indiferente, na definição apresentada por Coimbra, sequer estaria acompanhando suficientemente a política para considerar o voto uma questão imediata.
“É uma pessoa que não tem o menor interesse nesse assunto”, acrescentou.
Para Coimbra, interpretar esses dois grupos como se fossem equivalentes pode levar analistas, campanhas e veículos de comunicação a atribuírem aos números das pesquisas um grau de estabilidade que eles não necessariamente possuem.
Interesse pela política é restrito
O cientista político argumentou que o universo de pessoas que acompanha diariamente articulações partidárias, declarações de candidatos, movimentações regionais e estratégias eleitorais corresponde a uma parcela reduzida da sociedade.
“Uma parte majoritária da sociedade brasileira tem uma relação muito distante com a vida política nacional”, disse.
Segundo Coimbra, esse distanciamento tende a ser ainda maior entre segmentos de menor renda e escolaridade. O interesse aumenta naturalmente quando a eleição se aproxima, especialmente após o início efetivo das campanhas e da propaganda eleitoral.
Essa dinâmica ajudaria a explicar por que cenários registrados meses antes da votação podem sofrer transformações importantes na reta final.
Quem acompanha política regularmente tende a construir preferências com maior antecedência. Já o eleitor pouco interessado pode adiar sua decisão até o momento em que a campanha se torna impossível de ignorar.
Coimbra: pesquisa pode criar resposta que ainda não existia
É justamente nesse ponto que Coimbra apresenta uma de suas críticas mais fortes.
Ao abordar uma pessoa que ainda não pensou seriamente na eleição e perguntar em quem ela votaria “se a eleição fosse hoje”, uma pesquisa pode exigir uma definição sobre um problema que, para aquele cidadão, simplesmente ainda não existe.
O entrevistado pode responder espontaneamente que não sabe. Mas, dependendo da maneira como o questionário é conduzido e da insistência para que indique algum nome, Coimbra considera possível que seja produzida uma escolha circunstancial.
“Nós fabricamos, pelo modo de aplicar a pesquisa, uma opinião que não existe”, afirmou.
A declaração desloca a discussão sobre pesquisas eleitorais para além da tradicional margem de erro. Na avaliação apresentada pelo cientista político, não basta perguntar se a amostra representa corretamente a população. Também é necessário considerar qual é a qualidade e o grau de consolidação da opinião que está sendo medida.
Uma resposta registrada em determinado momento não necessariamente representa uma decisão eleitoral madura ou definitiva.
Quanto mais interessado, menor a chance de mudar
Coimbra também destacou um paradoxo conhecido nos estudos de opinião pública.
Eleitores politicamente engajados são justamente aqueles que mais procuram informações novas sobre candidatos e governos. Ao mesmo tempo, como já acumularam informações e construíram vínculos políticos, suas preferências tendem a ser mais resistentes aos acontecimentos cotidianos da campanha.
“Quanto mais interessado você é, mais informação nova você consome”, observou Coimbra.
O efeito sobre a decisão eleitoral, porém, pode ser inverso ao esperado. Quem já acompanha intensamente a política possui referências anteriores para interpretar cada informação nova e, por isso, tende a alterar menos sua preferência.
Já os cidadãos distantes da política podem entrar na disputa eleitoral apenas nas semanas finais, quando passam a prestar atenção aos candidatos, à propaganda, aos debates e às informações que circulam nas redes sociais.
“Quem não tem esse tipo de vínculo com nenhum partido, nenhuma candidatura, com o próprio assunto, só vai pensar nisso na hora que for obrigado”, afirmou.
Campanha pode mudar cenário aparentemente congelado
Essa leitura ajuda a explicar outra crítica feita por Coimbra durante a entrevista: a tentativa de interpretar pesquisas realizadas muito antes da votação como evidência de que uma disputa está “congelada”.
Se uma parcela relevante do eleitorado ainda não começou efetivamente a tomar sua decisão, pequenas diferenças ou aparentes estabilidades nos levantamentos podem dizer menos sobre o resultado futuro do que sugerem as manchetes.
O início da propaganda eleitoral, os debates, a maior exposição dos candidatos e o aumento do interesse público podem reorganizar rapidamente as preferências.
Coimbra citou a eleição presidencial de 2022 como exemplo. Meses antes da votação, pesquisas chegaram a indicar uma vantagem muito mais confortável de Lula sobre Jair Bolsonaro do que aquela observada nas urnas. Conforme a campanha avançou, a distância diminuiu substancialmente.
Para o pesquisador, episódios desse tipo deveriam estimular uma reflexão sobre quando o eleitor brasileiro efetivamente começa a decidir seu voto, em vez de alimentar a expectativa de que pesquisas muito antecipadas consigam prever o resultado eleitoral.
Problema vai além da margem de erro
A análise também evidencia a diferença entre dois tipos de incerteza.
A primeira é estatística e aparece explicitamente nas pesquisas por meio da margem de erro. A segunda é política e comportamental: diz respeito a quanto uma preferência declarada naquele momento está realmente consolidada.
Uma pesquisa pode cumprir corretamente seus procedimentos estatísticos e ainda assim registrar opiniões frágeis, circunstanciais ou sujeitas a grandes mudanças quando a campanha ganhar intensidade.
A discussão ganha importância em um ambiente no qual pesquisas são utilizadas diariamente para definir narrativas sobre candidatos que “crescem”, “caem”, atingem um “teto” ou se aproximam de adversários.
Na perspectiva apresentada por Coimbra, antes de perguntar quem está ganhando uma eleição ainda distante, talvez seja necessário fazer uma pergunta anterior: quantos eleitores já estão, de fato, pensando seriamente nela?
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