Além do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão, no pós-ditadura militar, passamos a contar com uma nova forma de “propaganda eleitoral”: o horário eleitoral dos interesses do capital. Entramos na décima eleição direta para presidente e, mais uma vez, surge, no chamado horário eleitoral privado, uma enxurrada de vazamentos seletivos de investigações judiciais, numa tentativa de pré-condenar Fábio Luís, filho do presidente Lula, que ganhou dessa mídia o “simpático” apelido de Lulinha. A mesma mídia que afasta o sobrenome Bolsonaro de Flávio, o candidato da extrema-direita.
A técnica utilizada na construção de um escândalo segue o conhecido roteiro: uma sequência de vazamentos ao arrepio da legalidade, cujos trechos são previamente selecionados e publicizados com o objetivo de interferir no processo eleitoral, criando uma narrativa que associe o adversário político à corrupção, ou à conivência com práticas criminosas.
Desde o chamado Mensalão e, posteriormente, a Operação Lava Jato, investigações ainda em andamento passaram a ser noticiadas de maneira a levar a opinião pública a um julgamento antecipado, muitas vezes antes do encerramento das apurações e da apresentação de provas materiais. Sem que se perceba a mera suspeita pode se transformar, pela repetição, em uma condenação pública.
As manchetes dos jornais e as escaladas dos telejornais são peças importantes nesse processo. Trata-se de um trabalho diuturno para manter determinado assunto aquecido até o dia da eleição. A percepção do eleitor de que “há alguma coisa por trás de tantas notícias negativas” ganha uma dimensão ainda maior quando essas informações chegam às redes sociais. Naquele ambiente dominado pelos algoritmos, a mera suspeita pode ser transformada em um escândalo de grandes proporções, pela repetição exaustiva da mesma narrativa.
Na falta de provas apresentadas publicamente, os artifícios utilizados agora para pré-condenar o filho de Lula por suposto tráfico de influência, chegam ao limite da desfaçatez.
É o caso da manchete publicada pelo jornal O Globo, nesta sexta-feira (21/8): “Casa usada por Lulinha foi alugada por dentista que disse à Lava-Jato morar no sítio de Atibaia”.
Esclareça-se: Fábio Luís nunca morou nessa casa em Brasília, e, segundo seu advogado, Marco Aurélio de Carvalho, não cometeu qualquer irregularidade, nem participou de reuniões com empresários ligados a Roberta Luchsinger. Mas isso parece não ser o que importa. O que importa, nesse tipo de cobertura, é alimentar suspeitas, criar conexões e, neste caso, estabelecer uma ligação indireta com a Lava Jato.
Uma operação que após a revelação de irregularidades processuais e de sua instrumentalização política, passou a ser duramente questionada. Foi naquele contexto que Lula acabou condenado e preso, no caso do triplex do Guarujá. Isso, embora o imóvel nunca tenha estado registrado em seu nome, ou no de qualquer de seus parentes.
Enquanto isso, no caso Dark Horse, em que há provas irrefutáveis contra Flávio Bolsonaro, permanecem sem respostas públicas questões envolvendo suas relações com Daniel Vorcaro. Lembro aqui que o senador chegou a afirmar que não sabia quem era o banqueiro, posteriormente teve divulgada uma conversa na qual chama Vorcaro, que dizia sequer conhecer, de “irmão”, a quem pede dinheiro.
Também completa hoje 100 dias, sem que tenha apresentado publicamente o contrato de mais de R$ 130 milhões, relacionado ao suposto patrocínio do filme Dark Horse por empresas de Daniel Vorcaro.
Se existe alguém que deve explicações à Justiça e aos eleitores, é Flávio Bolsonaro. Contra ele existe excesso de provas, como no caso das chamadas “rachadinhas”, das questões envolvendo a antiga loja de chocolates Kopenhagen e da compra de uma mansão em Brasília.
São assuntos que, diante da dimensão que poderiam alcançar, parecem receber uma atenção muito menor por parte da mídia tradicional.
Mais uma vez, a história se repete. Mudam os personagens, mudam as manchetes, mas permanece a velha fórmula: selecionar suspeitas, amplificá-las e interferir no processo eleitoral.
Por Florestan Fernandes Jr
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