Quousque tandem, abutere, Bolsonaro, patientia nostra?

Quousque tandem, abutere, Bolsonaro, patientia nostra?

Bolsonaro jamais tratou uma ordem judicial como limite definitivo

A pergunta lançada por Cícero contra Catilina atravessou os séculos porque não se dirige apenas a um conspirador. Dirige-se, sobretudo, à tolerância das instituições diante daquele que insiste em testar seus limites: “Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?”. No Brasil de 2026, a interrogação ressurge inevitavelmente diante da recalcitrância interminável de Jair Bolsonaro.

Na convenção partidária que lançou Flávio Bolsonaro à Presidência da República, apareceu um Jair Bolsonaro artificial, produzido por inteligência artificial, com sua imagem, sua voz e seu discurso em primeira pessoa. O condenado, impedido de atuar politicamente e proibido de utilizar redes sociais direta ou indiretamente, reapareceu digitalmente para saudar militantes, apresentar-se como vítima e impulsionar a candidatura do filho.

A tecnologia mudou; o método permanece.

A Justiça deverá apurar quem produziu o vídeo, quem o autorizou e qual foi o grau de conhecimento do ex-presidente. Isso é indispensável. Mas não se pode fingir que o episódio surgiu no vazio. Ele ocorre poucos dias depois de Bolsonaro escrever uma carta dirigida “aos brasileiros”, entregue a Flávio, que a divulgou pelas redes sociais. Na própria carta, o filho era designado como seu “porta-voz”. Alexandre de Moraes reconheceu expressamente o descumprimento da ordem judicial, mas decidiu manter a prisão domiciliar, aplicando restrições adicionais.

Na ocasião, o deputado federal Lindbergh Farias advertiu o ministro: Bolsonaro voltaria a desafiar as determinações judiciais e tentaria interferir no processo eleitoral. Não era profecia. Era a leitura elementar de uma conduta reiterada.

Bolsonaro jamais tratou uma ordem judicial como limite definitivo. Trata-a como obstáculo a ser contornado. Proibido de usar suas próprias redes, utiliza as redes dos filhos. Impedido de se manifestar diretamente, escreve cartas. Limitada a divulgação de cartas, surge uma reprodução artificial de sua imagem e de sua voz. A cada porta fechada, procura-se uma janela tecnológica, familiar ou partidária.

A recalcitrância, portanto, não consiste apenas na repetição material de uma conduta. É um método político de desgaste da autoridade pública. Bolsonaro descumpre, aguarda a reação e mede o custo. Quando a consequência é apenas uma nova advertência ou o acréscimo de outra proibição, conclui que ainda existe espaço para avançar.

Foi exatamente esse o risco da decisão que preservou a prisão domiciliar depois de Moraes haver reconhecido o descumprimento anterior. A moderação judicial, naquele momento, poderia ser apresentada como prudência. O episódio seguinte, porém, demonstra que a prudência sem consequência efetiva pode ser compreendida pelo infrator como hesitação.

O vídeo produzido por inteligência artificial agrava o problema porque introduz uma forma ainda mais sofisticada de fraude política. Não importa apenas que o conteúdo tenha sido identificado como artificial. A legislação eleitoral proíbe o uso de imagem e voz digitalmente reproduzidas para favorecer uma candidatura, mesmo quando exista autorização. O objetivo é impedir que a tecnologia fabrique presenças, falas e apoios capazes de manipular a percepção do eleitor.

No caso, a presença fabricada é ainda mais grave: oferece a um condenado, com direitos políticos suspensos e submetido a restrições judiciais, um corpo eleitoral digital. O homem não comparece, mas seu avatar comparece por ele. A voz natural está limitada, mas a voz sintética ocupa o palanque. A prisão é domiciliar; a aparição, nacional.

Não se trata de antecipar responsabilidade penal sem investigação. Trata-se de reconhecer que as instituições já não estão diante de um episódio isolado, de um equívoco familiar ou de uma interpretação duvidosa. Existe uma sequência coerente de atos destinados a conservar Bolsonaro como comandante eleitoral, ainda que por intermediários humanos ou digitais.

A pergunta, portanto, já não é apenas o que Bolsonaro fará em seguida. A experiência demonstra que ele continuará procurando meios de desafiar as ordens recebidas. A verdadeira pergunta é o que fará o Estado diante de alguém que transforma cada benefício em instrumento de provocação e cada advertência em oportunidade para uma nova transgressão.

A paciência republicana é uma virtude quando protege direitos. Torna-se omissão quando alimenta a impunidade. Até quando, Bolsonaro, abusarás da paciência das instituições brasileiras?

Por João Lister

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