A mulher de direita pode negar o feminismo enquanto ele parece uma pauta abstrata. Mas, quando o machismo bate à porta, é quase sempre o vocabulário feminista que explica a cena
O episódio envolvendo Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro poderia ser lido apenas como mais uma crise interna da direita brasileira. Mas ele revela algo maior, mais antigo e muito mais profundo do que uma disputa familiar ou partidária: o machismo não pergunta em quem a mulher vota antes de tentar colocá-la no lugar que considera adequado.
Essa talvez seja uma das maiores ilusões vendidas às mulheres conservadoras. A ideia de que, se forem comportadas, discretas, casadas, religiosas, mães, defensoras da família e críticas ao feminismo, estarão protegidas da misoginia. Como se o patriarcado fizesse algum tipo de pacto de proteção com as mulheres que obedecem melhor.
O patriarcado até aceita mulheres, desde que elas cumpram uma função. Aceita a mulher que enfeita o palanque, que humaniza o homem público, que mobiliza outras mulheres, que sorri na fotografia, que fala de família, que emociona o eleitorado e que confirma, com sua presença, a autoridade masculina ao redor. O problema começa quando essa mulher deixa de ser apenas símbolo e tenta ser sujeito. Quando quer decidir. Quando diverge. Quando ocupa um espaço que não foi concedido apenas como decoração.
Aí a engrenagem aparece.
E aparece de forma muito parecida para mulheres de todos os campos políticos. É claro que não vivemos todas a mesma experiência. Uma mulher branca, rica e pública não enfrenta o mundo da mesma forma que uma mulher negra, pobre, periférica, indígena, trans ou trabalhadora doméstica. Nenhum feminismo sério pode ignorar essas diferenças. Mas reconhecer as camadas da desigualdade não impede que a gente enxergue a estrutura comum: em algum momento, a sociedade tenta ensinar a toda mulher até onde ela pode ir.
Às vezes, esse limite vem em forma de violência física. Às vezes, vem como humilhação pública. Às vezes, como descrédito, interrupção, tutela, chantagem emocional, controle financeiro, exposição, piada, desqualificação intelectual ou aquela velha frase dita com naturalidade: “ela se acha demais”.
Mulheres de direita podem até rejeitar o feminismo. Podem ter aprendido que feminismo é exagero, ameaça à família, guerra contra os homens ou invenção de mulher ressentida. Mas, quando são diminuídas por homens do próprio campo político, quando percebem que sua palavra vale menos, quando entendem que serão toleradas enquanto forem úteis e descartadas quando forem inconvenientes, acabam encontrando exatamente aquilo que tentaram negar: a necessidade de dar nome ao que vivem.
E esse nome é machismo.
Foi isso que Chimamanda Ngozi Adichie ajudou a popularizar ao dizer que todos deveríamos ser feministas. Não como slogan vazio, mas como constatação prática de que a desigualdade de gênero molda a vida cotidiana. Ela define quem pode falar com autoridade e quem precisa pedir licença. Quem é visto como firme e quem é chamada de desequilibrada. Quem tem ambição e quem é acusada de abandonar sua função “natural”. Quem erra e recebe uma segunda chance e quem erra e vira prova de que mulheres não deveriam estar ali.
O feminismo, portanto, não é um capricho identitário. É uma ferramenta de leitura da realidade. Para muitas mulheres, é também uma ferramenta de sobrevivência psíquica, política e social. Porque existe um alívio enorme em descobrir que aquilo que parecia um problema individual, como a culpa, o medo, a sensação de inadequação e o cansaço de ter que provar competência o tempo todo, é, na verdade, parte de uma estrutura.
Esse é um ponto delicado, mas necessário.
Mulheres públicas devem ser criticadas por suas ideias, seus projetos, suas alianças e suas escolhas políticas. Isso faz parte da democracia. O que não pode ser aceito é que a crítica política seja substituída por violência de gênero. Há uma diferença enorme entre questionar uma posição pública e reduzir uma mulher ao papel de esposa, mãe, figura decorativa, histérica, ingrata ou inconveniente.
Quando a esquerda ri da misoginia contra uma mulher de direita, ela fortalece a arma que será usada contra todas nós. O machismo não fica preso em um campo ideológico. Ele circula com muita facilidade. Hoje atinge a adversária. Amanhã atinge a companheira. Depois atinge a jornalista, a ministra, a advogada, a professora, a vereadora, a trabalhadora que ousou denunciar assédio, a mulher que pediu divórcio, a filha que não aceitou obedecer.
Por isso eu insisto: todas as mulheres precisam do feminismo, inclusive aquelas que ainda acham que não precisam.
Isso não significa concordar com todas as mulheres. Não significa relativizar projetos políticos autoritários, racistas, elitistas ou contrários aos próprios direitos das mulheres. Também não significa transformar mulheres em seres moralmente superiores. Mulheres erram, disputam poder, reproduzem violências, defendem ideias ruins e podem ser responsabilizadas por isso.
Mas nenhuma crítica política precisa passar pela misoginia para ser contundente.
O ponto é outro. O feminismo não exige unanimidade entre mulheres. Exige que a gente não aceite a desumanização de mulheres como método. Exige perceber que o patriarcado se sustenta justamente quando nos convence de que algumas merecem ser protegidas e outras merecem ser punidas. As “boas” contra as “más”. As “de família” contra as “feministas”. As “respeitáveis” contra as “promíscuas”. As “discretas” contra as “militantes”. Essa divisão nunca serviu às mulheres. Sempre serviu aos homens que administram quais de nós serão toleradas.
Talvez seja por isso que tantas mulheres só entendam o feminismo quando a violência chega perto o suficiente. Quando o casamento não protege. Quando a religião não protege. Quando o sobrenome não protege. Quando o dinheiro não protege. Quando o partido não protege. Quando percebem que podem ter seguido todas as regras e, ainda assim, continuarão sendo tratadas como alguém que precisa ser corrigida, contida ou autorizada.
É uma descoberta dolorosa. Mas também pode ser uma abertura.
Porque o feminismo não é uma seita, nem uma carteirinha, nem uma autorização para pensar igual. É a recusa de aceitar que mulheres existam pela metade. É a defesa do direito de sermos pessoas inteiras, com contradições, desejos, ambições, erros, inteligência, poder e voz própria.
A mulher de direita pode negar o feminismo enquanto ele parece uma pauta abstrata. Mas, quando o machismo bate à porta, é quase sempre o vocabulário feminista que explica a cena. É ele que mostra que não se trata de um homem específico, de uma fala isolada, de uma grosseria pontual ou de um conflito familiar. Trata-se de uma lógica. Uma lógica que atravessa a política, a família, o trabalho, a religião, a Justiça e a intimidade.
E se essa lógica atravessa todas nós, a resposta não pode ser individual.
A dor comum não nos obriga a esquecer nossas diferenças. Mas deveria nos lembrar que nenhuma mulher vence sozinha uma estrutura feita para nos manter em disputa, em silêncio ou em posição secundária.
No fim, ser feminista não é odiar homens. É deixar de amar a própria submissão. É entender que respeito não pode depender de obediência. É saber que uma mulher não precisa ser perfeita, simpática, dócil ou ideologicamente próxima para não ser vítima de misoginia.
Toda mulher, cedo ou tarde, descobre que o feminismo não era o inimigo.
Era o nome da liberdade que tentaram nos ensinar a temer.
Por Thaís Cremaso
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