Nos dias 24 e 25 de junho, a comunidade camponesa de La Unión, no cantão Las Naves, província de Bolívar, no Equador, enfrentou brutal repressão por parte de forças policiais e militares do governo Daniel Noboa. Cerca de 500 agentes armados usaram gás lacrimogêneo, gás de pimenta e balas de borracha para dispersar os moradores que resistem há mais de um mês à entrada da mineradora Curimining S.A., subsidiária das canadenses Salazar Resources e Silvercorp Metals, e vinculada ao Grupo Nobis, da família do presidente equatoriano.
O saldo da repressão inclui pelo menos três camponeses feridos, entre eles uma mulher de 40 anos baleada no ombro e um jovem de 20 anos, que levou um tiro na cabeça e precisou de sutura com 20 pontos. Segundo denúncias da população, “a polícia atua como guarda privada” da mineradora e não hesita em utilizar a violência para proteger interesses empresariais.
A Frente Nacional Antiminero e a Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie) condenaram veementemente a violência terrorista do velho Estado equatoriano, responsabilizando o governo pela agressão e exigindo o fim imediato da repressão em territórios indígenas e camponeses. A Conaie disparou que a força pública é utilizada para “defender os interesses empresariais e de Daniel Noboa, violando direitos fundamentais”, enquanto o povo segue resistindo à imposição dos megaprojetos de mineração.
A organização democrático-revolucionária Frente de Defesa das Lutas do Povo do Equador (FDLP-EC) lançou um comunicado intitulado “Defender a terra é um direito, combater o inimigo é um dever!” onde expressou “sua mais firme e combativa solidariedade com os camponeses da comunidade de La Unión… que enfrentam uma brutal repressão por parte dos aparatos armados do velho Estado: polícia, militares e esbirros a serviço das mineradoras e do imperialismo”.
“Uma vez mais, o Estado equatoriano atua como guardião dos interesses do imperialismo e das empresas extrativistas”, denuncia a organização, destacando que o conflito não é apenas ambiental, mas também “uma guerra pela soberania, pela vida e pela terra… e parte da luta contra o imperialismo”, em que os camponeses e povos originários defendem seus territórios contra “o despojo, a destruição ecológica, a criminalização e a ofensiva do capitalismo burocrático”.
“A Curimining não só devasta a biodiversidade e contamina as águas, mas destrói a organização comunitária, promove a divisão e reforça a semifeudalidade no campo”, ressaltou a FDLP-EC, alertando para as consequências negativas da mineração intensiva, que já provoca graves impactos ambientais e ameaça diretamente as comunidades locais, que dependem da terra e dos rios para seu trabalho e subsistência.
A FDLP-EC ainda responsabilizou o velho Estado equatoriano pela repressão: “A violência foi desatada por ordens diretas do governo de Daniel Noboa, que carregará sobre seus ombros a responsabilidade política e penal das consequências dessa intervenção militarizada. Não é um governo de paz, é um regime a serviço da pilhagem transnacional.”
Megaprojeto ligado à família Noboa
Os camponeses de Las Naves enfrentam a expansão agressiva do megaprojeto Curipamba-El Domo há mais de um ano. A resistência local se intensificou especialmente a partir de janeiro de 2024, quando a mineradora Curimining obteve a licença ambiental para iniciar a exploração na área. O projeto abrange 7 concessões, todas em Bolívar, totalizando 21.537 hectares, com a concessão de Las Naves (1.458 ha) já em fase de exploração e beneficiamento para o desenvolvimento da mina El Domo.
A área total cedida à Curimining é quase do tamanho do cantão Echeandía (23.206 ha), onde o projeto tem duas concessões (Jordán 1 e 2). As demais concessões da mineradora estão nos cantões Guaranda (Las Naves 1 e 2) e Las Naves (Las Naves 3 e 5), todos na província de Bolívar.
A família de Isabel Noboa, tia do presidente equatoriano Daniel Noboa, está diretamente envolvida no megaprojeto por meio do Grupo Nobis, uma holding que reúne diversas empresas nos setores agroindustrial (exportação de commodities), imobiliário e energético. Dentro desse grupo, a Nobis Holding é a principal empresa e, em 2019, adquiriu ações da Adventus Mining, agora parte da Silvercorp Metals, corporação canadense focada na extração de metais preciosos, consolidando a participação da família no setor de mineração.
O megaprojeto Curipamba-El Domo é fruto de uma joint venture (parceria estratégica) entre Salazar Resources e Silvercorp Metals, ambas canadenses. A operação local fica a cargo da Curimining, uma subsidiária da Silvercorp, que, após adquirir a Adventus Mining em 2024, passou a controlar majoritariamente o projeto. O Grupo Nobis, por meio de sua participação na Curimining, exerce controle administrativo e influência direta sobre as operações.
Além disso, a família Noboa ainda criou a Fundação Nobis, uma “entidade social para promover atividades educacionais e de capacitação” vinculada ao projeto minerador e com ações em comunidades locais. A mídia popular equatoriana Wambra produziu uma investigação detalhada sobre o tema, intitulada “A expansão da megamineração e seu vínculo com a família Noboa”.
A Frente Nacional Antiminero, uma organização que combate os impactos da mineração no Equador, alertou: “O grupo econômico mais rico do país, que atualmente controla o Executivo e o Legislativo, tem interesses mineradores no cantão Las Naves. E não é o único projeto: sabe-se que as ações deste império familiar na empresa Adventus Mining, hoje Silvercorp, abrangem cerca de 164.000 hectares em concessões mineradoras por todo o país.”
Ainda durante a campanha de Noboa durante a farsa eleitoral de 2023 no Equador, os revolucionários da FDLP-EC já o apontavam como representante da fração da grande burguesia diretamente atada ao imperialismo e afirmavam que sua vitória representaria a abertura ainda maior das “condições políticas para que os grandes monopólios nacionais e internacionais” devorassem ainda mais o país, previsão que se confirma cada vez mais na prática.
Devastação dos meios naturais
Em seu site, o Grupo Nobis caracteriza o monopólio imperialista de mineração do qual é sócio local (Silvercorp) como “uma empresa canadense especializada em mineração sustentável” (sic).
Contudo, em verdade, em vez de “mineração sustentável”, os megaprojetos imperialistas promovem uma verdadeira devastação dos meios naturais por onde passam, sobretudo nos países oprimidos pelo imperialismo em África, Ásia e América Latina, dentre os quais o Equador e, inclusive, o Brasil.
Somente o desenvolvimento da mina de El Domo resultará em gravíssimos impactos ambientais. Citando apenas meios aquáticos, serão diretamente afetados os rios Naves Chico, Naves Grande, Oncebí, Suquibí, Zapotal e Catarama. Este último, ironicamente, passa junto ao latifúndio La Bonita, uma das maiores plantações de banana do Grupo Nobis, localizada no cantão Ventanas, que usa sua água.
A Liga Anti-Imperialista (LAI), organização internacional em processo fundacional em diversos países, inclusive no Brasil, assim sintetiza a devastação imperialista do meio ambiente: “Para o sistema capitalista, tudo serve como mercadoria para obter lucros e utilizá-los para a reprodução ampliada do capital. As pessoas, as comunidades, os demais seres vivos e a própria natureza não têm outro significado para o sistema capitalista senão ser uma mercadoria para obter lucros.”
“O despejo de milhões de massas camponesas e de povos indígenas das suas terras devido à apropriação de terras agrícolas em interesse dos monopólios internacionais e dos grandes latifundiários… a destruição inimaginável da natureza, são os resultados visíveis da ordem imperialista de saqueio e pilhagem em que vivemos”, aponta ainda a LAI em sua convocatória pública. Com informações de A Nova Democracia
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