Típico da extrema direita: invasão de grupo de direita à USP termina em confronto com estudantes

Típico da extrema direita: invasão de grupo de direita à USP termina em confronto com estudantes

A União Conservadora, grupo de jovens de direita causou tumulto na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da USP, nesta sexta-feira, 5.

Os integrantes do grupo extremista arrancaram cartazes fixados no local, alegando se tratar de propaganda comunista, e discutiram com graduandos. Vídeos registraram o momento em que Mario Fortes, presidente da entidade, mordeu um aluno.

Os estudantes da USP expulsaram os militantes. Os extremistas mais agressivos foram expulsos a socos e pontapés: “única linguagem que entendem”, informou um dos estudantes.

Essa foi a oitava vez em 2025 que a União Conservadora esteve na FFLCH. O grupo costuma visitar o local para retirar cartazes e filmar embates com estudantes.

O diretor da FFLCH, Adriano Fanjul, já havia denunciado as invasões à Procuradoria-Geral da USP há três meses, pedindo medidas para impedir os atos. Em nota, diretórios e centros acadêmicos criticaram a falta de ação da reitoria e disseram que a inércia da administração “coloca ativamente os estudantes em risco”.

Purificação através da estupidificação

A ação da União Conservadora é típica de regimes totalitários e lembra as ações da Liga dos Estudantes Alemães Nacional-Socialistas.

Uma das quais ficou tristemente lembrada como a da queima de cerca de 144 mil livros.

O caso aconteceu em 1933, quando trajando os notórios uniformes marrons com emblema da suástica, os estudantes, membros da liga, invadiram a biblioteca, onde hoje fica a Faculdade de Direito da Universidade de Humboldt, e roubaram mais de 20 mil livros escritos por “degenerados” e os queimaram em praça pública.  Todo o livro que fosse crítico ou se desviasse dos padrões impostos pelo regime nazista era destruído. 3 mil obras foram colocadas na lista de inimigos da nação. A maior parte da lista era composta por obras de Ciências Humanas.

O ato foi reproduzido por membros da Liga dos Estudantes Alemães Nacional-Socialistas em 19 cidades universitárias da Alemanha nazista. Os atos eram acompanhados de slogans como o “Contra a Decadência e o Declínio Moral, pela Disciplina e Moralidade na Família e no Estado, o avô do “Deus, Pátria e Família”, difundido pelos extremistas no Brasil, 85 anos depois.

Os livros são fundamentais para a formação cultural e política da população, para a preservação da memória dos povos, além de serem essenciais para a educação, por isso “uma das primeiras providências da maioria dos regimes autoritários é censurar a liberdade de expressão e opinião, uma forma de dominação pela coerção, limitação ou eliminação das vozes discordantes”, observa Sandra Reimão, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) e da Escola de Comunicações e Artes (ECA), ambas da USP.

Nos regimes autoritários a censura e a queima de livros fazem parte das políticas de repressão cultural que acompanham a perseguição, o sequestro, o assassinato e o desaparecimento de pessoas. O discurso do bem da família vira arma de destruição institucional amparado na narrativa do mal iminente. O  controle e gestão do medo são fundamentais para o controle da população, por isso espalham o pânico ideológico, moral e espiritual.

Ditadura no Brasil e na Argentina

Durante a ditadura militar brasileira que durou de 1964 a 1985, cerca de 144 livros foram proibidos, além de filmes, músicas, peças de teatro e outras obras, como telenovelas, porque o AI-5 dava abertura para a censura de qualquer obra que contivesse críticas à corrupção, abuso de poder e repressão, assim como referências a desigualdade social e luta de classes.  Novelas que apresentassem personagens marginalizados ou realidades urbanas complexas enfrentavam dificuldades para serem exibidas.
Dentre estas, duas obras foram emblemáticas: Dez Vidas, exibida pela TV Excelsior em 1969 que retratava a A Inconfidência Mineira e pasmem,  Escrava Isaura.  A novela Dez Vidas baseada no livro  Caminho da  Liberdade de Wanderley Torres, destacava a frase de Tiradentes “se dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria”. O tema desagradou os censores por tratar de “temas sensíveis”, incluindo a escravidão negra no Brasil. Para os militares o período de escravização foi algo negativo para o país e, por isso, até mesmo deveria ser tirado das páginas dos livros didáticos, que dirá ser tratado em uma telenovela. A novela Dez Vidas foi bruscamente tirada do ar em 1970 deixando os telespectadores sem entender nada.
A novela Escrava Isaura, da Rede Globo, de 1976,  adaptada do livro de Bernardo Guimarães e sucesso internacional, também teve problemas com a censura militar por causa do uso da palavra escravo. Para continuar a ser exibida, foi preciso substituir a palavra escravos por peças.
A repressão ao pensamento na ditadura militar não se limitou à censura. O regime totalitário criou  programas governamentais de compra de livros escolares, que além de favorecerem empresas amigas do regime, difundiram manuais alinhados com os valores conservadores. Talvez venha daí o apoio à Direita mesmo pelas classes mais penalizadas por ela, afinal, foi a Escola com Partido.
Argentina e Chile
Na Argentina e no Chile, as ditaduras militares também replicaram a prática da censura e queima de livros sob o argumento de que continham ideias subversivas e ajudavam na doutrinação comunista. Sob Pinochet no Chile eram frequentes as imagens de homens uniformizados destruindo e queimando livros.

Quando, em 11 de setembro de 1973, Augusto Pinochet depôs o governo do socialista Salvador Allende no Chile com um golpe, além do horror que foi cometido contra os militantes e suas famílias, iniciou-se também uma perseguição aos livros, sob o argumento de que eles ajudaram na doutrinação comunista.

Milhares de títulos foram banidos nos dois países. Os militares argentinos chegaram ao cúmulo de proibir o livro O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry,  por ordem do general Rafael Videla, que o considerou cheio de ideias subversivas.

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