Bancada cristã tira a pele de cordeiro e vota no lobo mau

Bancada cristã tira a pele de cordeiro e vota no lobo mau

Em nome de um moralismo que ignora a compaixão, deputados da “bancada cristã” obrigam meninas estupradas a manter a gravidez. Uma cruz que o próprio Cristo jamais teria mandado carregar

É oficial: a bancada cristã tirou a pele de cordeiro. Já não há mais disfarce algum. Sob o discurso do zelo pela “vida”, revelou-se a mais cruel das contradições:  a defesa de um projeto de lei que violenta meninas pela segunda vez, agora com a chancela do Estado.

O PDL aprovado obriga crianças de até 14 anos, vítimas de estupro, a manter a gravidez. Sim, crianças. Meninas que ainda brincam de boneca ou futebol, que talvez nem saibam direito o que é menstruação, mas agora, por decisão de homens e mulheres que se dizem de Deus, terão que dar à luz ao fruto da violência que sofreram.

A ironia é densa como o incenso de um templo: os mesmos que se dizem contra a “ideologia de gênero” são os que agora impõem o corpo de uma criança como campo de batalha para uma guerra moral. Nenhum dos discursos inflamados sobre “valores da família” se lembra de que o estupro de vulnerável — qualquer relação com menores de 14 anos — é crime hediondo.

Mas na lógica dessa cambada, ops, bancada, o agressor é quase invisível; o peso da culpa e da dor recai sobre a vítima. Para essa turma perversa, chapeuzinho vermelho é a grande culpada da história (será por causa da cor do seu gorrinho?). O que fazia sozinha numa floresta com um lobo mau à solta, em toda sua liberdade de expressão e de vida. Não se pode julgar o lobo. Ele é macho, e macho faz essas coisas mesmo.

Não há parábola bíblica capaz de justificar tamanha perversidade. Jesus se colocava ao lado dos fracos, dos feridos, dos humilhados. Mas os deputados que votaram a favor do PDL escolheram o outro lado da história — o lado do lobo. E o mais perverso é que o lobo, agora, fala em nome do Cordeiro.

Sob o verniz de piedade, esconde-se um sadismo institucionalizado: a ideia de que forçar uma criança a manter uma gravidez é “defender a vida”. Defender a vida de quem? Certamente não a da menina, cuja infância é arrancada com bisturi ideológico e cuja dor é transformada em instrumento político.

O discurso cristão que se ouve nesses plenários não é o das bem-aventuranças, mas o dos fariseus — os que oram em público e apedrejam em segredo. É curioso observar o entusiasmo, quase freudiano, dos pastores-deputados e dos deputados-pastores, que entre um versículo e outro parecem confundir o púlpito com o palanque. A Bíblia, para eles, virou uma espécie de Constituição paralela, interpretada à conveniência de quem precisa garantir votos no curral eleitoral da fé. “Deixai vir a mim as criancinhas”, dizia Jesus. Mas na versão distorcida dessa bancada, o versículo ganhou um complemento macabro: “…e obrigai-as a parir.”

Não é exagero dizer que estamos diante de um projeto teocrático disfarçado de moral. A lei brasileira já reconhece o direito ao aborto em casos de estupro. O que o PDL faz é rasgar esse direito com a justificativa de que “a vida começa na concepção” — uma frase de efeito que soa bonita nas redes sociais, mas que, aplicada à força, destrói vidas de carne e osso. E obriga mais milhares de crianças a serem fruto da violência: as que pariram e as que foram paridas. Mais tarde essas mesmas crianças serão mortas sob aplausos em alguma “operação bem sucedida”.

O Estado que deveria proteger as vítimas agora as obriga a reviver o trauma diariamente. E os mesmos parlamentares que se dizem “pró-vida” raramente demonstram a mesma energia para garantir comida, escola e dignidade às crianças já nascidas. No fundo, o que se viu nessa votação não foi um ato de fé, mas de poder. O cristianismo transformado em arma política, a cruz convertida em instrumento de opressão, o púlpito usado para justificar o inominável.

Se Cristo voltasse hoje e entrasse naquele plenário, talvez não encontrasse discípulos — apenas lobos vestidos de terno, citando versículos para justificar o horror.

O mais trágico é que o discurso desses “defensores da moral” ainda encontra eco em parte da população, seduzida pela retórica da pureza. Mas o que há de puro em forçar uma criança estuprada a ser mãe? O que há de cristão em negar compaixão? O que há de divino em perpetuar o sofrimento?

A verdade é que essa bancada, tão orgulhosa de carregar a Bíblia debaixo do braço, esqueceu de abri-la. Esqueceu que Jesus nunca exigiu sacrifício dos inocentes. E esqueceu que o próprio Cristo preferia os pecadores arrependidos aos religiosos hipócritas.

A aprovação do PDL é uma mancha moral, uma blasfêmia legislativa. E quando os lobos terminam de votar, saem satisfeitos, dizendo ter defendido “a vida”. Enquanto isso, do outro lado da história, uma menina chora — e ninguém corre para salvá-la.
Porque os pastores, desta vez, estão ocupados demais defendendo o lobo mau.

Por pastor Zé Barbosa Jr

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