Vorcaro negociou venda de testes da Covid-19 com o governo Bolsonaro

Vorcaro negociou venda de testes da Covid-19 com o governo Bolsonaro

O banqueiro Daniel Vorcaro, hoje conhecido nacionalmente pelo caso Banco Master, tentou vender testes de Covid-19 ao governo federal no início da pandemia, quando ainda era um empresário longe dos holofotes políticos e financeiros. Mensagens obtidas pela CPMI do INSS mostram que o então controlador do antigo Banco Máxima conversou, em março de 2020, com um integrante da Casa Civil da Presidência sobre a importação do produto, em um momento de forte corrida global por insumos médicos e de colapso no abastecimento internacional.

Na época, a Casa Civil era chefiada por Walter Braga Netto, general preso pela trama golpista. O diálogo, obtido pela Folha de S.Paulo,   aparece em uma captura de tela armazenada no celular de Vorcaro e revela o interesse do empresário em viabilizar a operação. Na conversa, o interlocutor ligado ao governo pergunta de que forma a administração federal poderia ajudá-lo.

Em resposta, Vorcaro relata dificuldades para concluir a compra dos testes. Segundo ele, houve um “empecilho” provocado por uma “intervenção” do governo da Coreia do Sul, o que teria travado a negociação naquele momento. Na sequência, afirma que estava trabalhando para “fechar com outro fornecedor”.

Integrantes da Casa Civil e do Ministério da Saúde que atuaram no comitê de crise da pandemia disseram que diversos empresários procuraram o governo na época tentando intermediar importações de testes, mas poucas tratativas avançaram. Segundo esses relatos, vários países, entre eles a Coreia do Sul, restringiram exportações para proteger seus próprios estoques.

Naquele momento, Vorcaro atuava principalmente no setor imobiliário e havia assumido o controle do Banco Máxima em 2019, pouco antes do diálogo. A instituição só seria rebatizada como Banco Master em 2021.

Documentos de Imposto de Renda enviados à CPI mostram a velocidade de sua ascensão patrimonial: os bens declarados por ele somavam R$ 469,7 milhões em 2020 e chegaram a R$ 2,64 bilhões em 2024.

O episódio se conecta a um período de forte desorganização na política pública de testagem no Brasil. Nos primeiros meses da pandemia, o governo distribuiu principalmente testes rápidos recebidos por doações de empresas. O Ministério da Saúde chegou a pedir ofertas de companhias interessadas em fornecer exames para diagnóstico rápido, mas cancelou a compra.

Mais tarde, adquiriu testes RT-PCR de uma farmacêutica coreana por meio da Organização Pan-Americana da Saúde. Parte expressiva desses exames, no entanto, ficou estocada por meses por falta do kit completo de diagnóstico, e ao menos 1,2 milhão perdeu a validade ainda no armazém da pasta.

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