Alvo da PF no Master, Ciro Nogueira vira estorvo ao aliado Flávio Bolsonaro

Alvo da PF no Master, Ciro Nogueira vira estorvo ao aliado Flávio Bolsonaro

Há sonhos que a realidade insiste em não respeitar. O do senador Ciro Nogueira (PP-PI) de ocupar a vice na chapa presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ou de ser um dos coordenadores da campanha do senador está sob os escombros devido a um mandado de busca e apreensão autorizado pelo ministro André Mendonça, do STF, e cumprido pela Polícia Federal na manhã de hoje.

A Polícia Federal fez seu toc-toc na porta de endereços do senador em Brasília e no Piauí como parte da quinta fase da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes no extinto Banco Master. Segundo apurou o Fábio Serapião, no UOL, a investigação aponta que Nogueira teria recebido R$ 18 milhões em propina para defender os interesses da instituição, que seriam repassados em depósitos mensais e por meio de uma negociação de compra e venda de uma empresa.

Felipe Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, dono do banco, foi preso por suspeita de ter operacionalizado os pagamentos. O que prova que Daniel é mesmo um homem de família, pois a cada semana descobrimos alguém novo de seu clã investigado por maracutaias.

Felipe Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, dono do banco, foi preso por suspeita de ter operacionalizado os pagamentos. O que prova que Daniel é mesmo um homem de família, pois a cada semana descobrimos alguém novo de seu clã investigado por maracutaias.

O sonho não nasceu agora. Quando o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) era o nome mais cotado pela extrema direita para a corrida presidencial, Nogueira aparecia nos bastidores como possível vice. Com a candidatura migrando para Flávio Bolsonaro, o senador piauiense seguiu se posicionando como peça central do projeto — afinal, o PP, federado ao União Brasil, é estrutura importante para qualquer empreitada eleitoral. O problema é que essa estrutura agora tem um nó.

A prisão de Daniel Vorcaro, em março, arrastou para a crise uma miríade de políticos que tinham interlocução e amizade com o banqueiro. Ciro Nogueira é um deles, e não de forma periférica.

O senador atuou nos bastidores contra a criação de uma CPMI que investigaria o Banco Master. Ao mesmo tempo, empenhou forças pela aprovação de uma emenda constitucional que aumentaria a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF — o que beneficiaria diretamente uma instituição que estava escorando seus CDBs exatamente nesse fundo. Também apoiou a compra do Master pelo BRB, banco estatal do Distrito Federal, operação que foi chumbada pelo Banco Central – não sem antes um prejuízo multibilionário para a estatal. Ou seja, os R$ 18 milhões seriam por serviços prestados.

A PF chegou à suspeita de propina após encontrar mensagens nos celulares apreendidos em fases anteriores, incluindo o do próprio Daniel Vorcaro. O que mostra que ele e outros envolvidos vão ter que suar muito a camisa para oferecer, em suas colaborações, algo novo que realmente seja digno de ser premiado. Porque a “delação” do celular do banqueiro cantou alto, muito alto.

Para Flávio Bolsonaro, o problema não é apenas político, mas narrativo. Apesar de conhecido pelo escândalo dos desvios de salários dos funcionários de seu gabinete, as famosas “rachadinhas”, sua chapa presidencial pretende vender a ideia de combate à corrupção. Com isso, sua campanha não pode carregar um nome que a Polícia Federal investiga por receber propina milionária do banqueiro mais famoso do Brasil.

Radioatividade política tem meia-vida longa, especialmente quando o eleitor que a direita quer conquistar é exatamente aquele que diz que está cansado de escândalos como a do Banco Master.

Ciro Nogueira sobreviveu a muitas tormentas — do Mensalão, passando pela Lava Jato até as convulsões do bolsonarismo. Nos últimos tempos, estava preocupado com sua reeleição ao Senado, em um estado em que petismo segue forte. O que não o impediu de peripécias, como viajar em jatinho de seu amigo dono de bets, no que ficou chamado de Bonde do Tigrinho. Mas desta vez a tempestade tem nome, endereço e número de CPF. E a PF está à porta.

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