Jornal britânico associa avanço evangélico ao declínio do futebol brasileiro

Jornal britânico associa avanço evangélico ao declínio do futebol brasileiro

A eliminação do Brasil para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 abriu um debate inusitado sobre as mudanças culturais e religiosas do país. Em artigo de Stephen Gibbs publicado pelo The Times, um dos jornais mais tradicionais do Reino Unido, fundado em 1785 e atualmente de propriedade de Rupert Murdoch, o jornal afirma que parte dos brasileiros passou a relacionar o declínio da Seleção ao crescimento do evangelismo em detrimento do catolicismo.

Segundo a publicação, as redes sociais foram tomadas por comentários que associam a perda da identidade do futebol brasileiro ao avanço das igrejas evangélicas, especialmente das correntes neopentecostais. Um perfil no X resumiu a tese de forma provocativa: “O Brasil era melhor quando seus jogadores eram mulherengos, beberrões e um pouco fora de forma. Em outras palavras, quando se comportavam como católicos”.

A postagem, que viralizou, ainda dizia que a “esterilização protestante evangélica achatou a bola, destruiu o samba e eliminou o estilo brasileiro”.

A discussão ganhou contornos nacionalistas. Muitos usuários argumentaram que o cristianismo evangélico contemporâneo seria uma influência importada dos Estados Unidos, país sem tradição no futebol de elite. Um dos memes citados pela reportagem resumiu essa crítica: “Reze como um gringo, jogue como um gringo”.

O Times ressalta que o debate se apoia em uma transformação real da sociedade brasileira. Quando o Brasil conquistou seu último título mundial, em 2002, cerca de 80% da população se declarava católica. No Censo mais recente, esse percentual caiu para aproximadamente 55%. No mesmo período, os evangélicos passaram de cerca de 15% para mais de 25% da população.

Essa mudança também ocorreu dentro da Seleção. De acordo com o jornal, pelo menos 20 dos 26 convocados atualmente são evangélicos. Neymar é citado como o caso mais conhecido. O atacante, que cultivava fama de playboy, foi batizado em 2017 e desde então passou a publicar frequentemente versículos bíblicos nas redes sociais. Já o capitão Marquinhos e Vinícius Júnior permanecem praticantes do catolicismo.

O texto destaca ainda a entrevista concedida por Endrick após a derrota para a Noruega. Depois de desperdiçar uma oportunidade clara de gol, o atacante de 19 anos afirmou: “Foi um momento em que eu poderia ter feito melhor. Não consegui, mas agradeço a Deus pela oportunidade.”

A declaração provocou reações. O jornalista esportivo Pedro Rosano escreveu que gostaria que os jogadores brasileiros tivessem o “sentimento de culpa católico”, baseado em arrependimento e penitência, em vez de uma visão religiosa que, segundo ele, transfere toda a responsabilidade para Deus.

O Times lembra que muitos torcedores olham com nostalgia para as gerações campeãs das décadas de 1960 e 1970, período do chamado “jogo bonito”. Aquele grupo reunia jogadores como Pelé, Rivellino e Carlos Alberto Torres, todos criados em famílias católicas e conhecidos tanto pelo futebol ofensivo quanto pela vida boêmia.

Em 2010, Carlos Alberto Torres, capitão da seleção tricampeã de 1970, afirmou que o segredo daquele time era equilibrar “futebol, samba e mulheres bonitas”. Para o historiador brasileiro André Pagliarini, da Universidade Estadual da Louisiana, ouvido pelo jornal, o crescimento do neopentecostalismo ajudou a impulsionar mudanças estruturais na sociedade brasileira que também chegaram ao futebol.

Segundo ele, as grandes seleções brasileiras surgiram em uma cultura que valorizava o coletivo acima do indivíduo, característica que estaria sendo enfraquecida paralelamente ao crescimento de correntes religiosas mais voltadas para a experiência individual.

Por Kiko Nogueira

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