O que Daniel Vorcaro e a ‘Ndrangheta têm em comum

O que Daniel Vorcaro e a ‘Ndrangheta têm em comum

São cada vez mais estarrecedoras as notícias a respeito de Daniel Vorcaro. Já sabíamos que ele mandou arrebentar os dentes do jornalista Lauro Jardim; que mandou levantar os possíveis “podres” de outra jornalista, Malu Gaspar, e depois silenciá-la, contratando-a a peso de ouro; que mandou dar uma lição numa “diarista” de uma ex-namorada e planejou um flagrante de cocaína contra o ex-marido de sua então noiva.

Já sabíamos que tinha uma milícia privada, sob o comando de um amigo de infância batizado de “Sicário” pela PF. Sicário é matador de aluguel. E o suicídio dele, na sede da PF, continua sob suspeita. Sua linguagem e seus métodos não ficam nada a dever aos diálogos e às cenas de filmes sobre as máfias italianas, como “O Poderoso Chefão”.

Hoje, ficamos sabendo que mandou seu comparsa Thiago Miranda “investigar” o CEO do Itaú, o maior banco e a maior empresa do Brasil. Não só ele, como também sua mulher. Também ficamos sabendo que a “investigação” foi realizada. E, coincidência ou não, logo em seguida, o site “Metrópoles” começou a publicar uma série de “reportagens”, no mínimo, capciosas sobre esse mesmo banco.

Também ficamos sabendo que Thiago Miranda, que está no xilindró, foi quem apresentou Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, que lhe prometeu uma bolada de aproximadamente R$ 160 milhões, da qual forneceu grande parte. Cabe à PF revelar a soma exata. Dinheiro roubado dos clientes do Banco Master. O que coloca em xeque a candidatura do presidenciável. O TSE vai autorizá-la?

Vorcaro não tinha limites. Coincidência ou não, a sua família é originária da Calábria, a mesma região da Itália onde surgiu, no século XIX, a máfia que é hoje a mais poderosa e mais perigosa do mundo: a ‘Ndrangheta. Superou a Cosa Nostra.

Ela atua no Brasil desde 1980. Mas só entre os anos 2000 e 2010 a PF descobriu que usava o país como plataforma de exportação de cocaína. Tem laços estreitos com o PCC e também com o CV. Eles fornecem a cocaína que a ‘Ndrangheta vende sobretudo na Europa. É seu principal negócio. Um negócio de 60 bilhões de euros por ano, segundo as autoridades italianas.

Alguns de seus chefes já foram presos no Brasil. Nicola Assisi foi o primeiro, preso em 2019, na Praia Grande, a 60 quilômetros de São Paulo. Foi extraditado. Rocco Morabito, alcunhado de “o rei da cocaína de Milão”, caiu no ano de 2021, em João Pessoa. No ano seguinte, foi extraditado para a Itália.

Junto com ele, Vincenzo Pasquino, que, na Itália, virou delator. E delatou as conexões com o PCC e o CV.

A ‘Ndrangheta é especialista em infiltração financeira, bancos de fachada, lavagem de dinheiro com imóveis de luxo e corrupção política — exatamente o que chama a atenção em casos como o do Banco Master. Mas esses métodos são universais no crime organizado transnacional, usados pelo PCC, por cartéis mexicanos, máfias russas etc.

Até agora, as investigações sobre Vorcaro não apontam para conexões internacionais com a ‘Ndrangheta. Se existissem, a PF ou a Interpol provavelmente já as teriam mencionado, dada a visibilidade do caso. Mas é cedo para tirar conclusões definitivas. Não sabemos qual será o teor dos próximos capítulos.

Por Alex Solnik

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