Proposta integra o pacote de reformas alinhado às diretrizes do Fundo Monetario Internacional (FMI). A liberdade avança, os direitos recuam
Entre os pontos mais controversos está a redução da indenização por rescisão contratual, que estipula que o salário utilizado para o cálculo será o salário-base, e não o salário mais alto. Isso exclui itens como férias remuneradas, bônus, gorjetas e outros incentivos. Além disso, o projeto estabelece o controverso Fundo de Assistência ao Trabalho (FAL), que fornece financiamento para que as empresas demitam funcionários e tem sido alvo de fortes críticas da oposição no Senado, informa o jornal argentino Pagina 12.
Por outro lado, a reforma permite estender a jornada de trabalho diária de 8 para 12 horas e cria o banco de horas, que possibilitaria que as horas extras fossem “compensadas” em outro dia de trabalho, em vez de serem pagas.
O direito à greve e à realização de assembleias durante o horário de trabalho também será restringido. Além disso, dezenas de serviços estão sendo declarados essenciais para limitar as paralisações e, assim, restringir a capacidade de luta dos trabalhadores.
A reforma cria um regime específico para serviços de entrega e mobilidade por meio de plataformas digitais que, na prática, estabelece que aqueles que desempenham essas tarefas são considerados “prestadores independentes” e não trabalhadores abrangidos pela Lei do Contrato de Trabalho.
Outro ponto sensível do projeto é a revogação da Lei do Teletrabalho, em vigor desde 2021. Essa lei regulamenta o trabalho remoto por meio do uso de tecnologias e garante que aqueles que realizam tarefas em suas casas tenham os mesmos direitos que os funcionários que trabalham presencialmente.
Leis como as que regem jornalistas, cabeleireiros e vendedores-viajantes estão sendo revogadas, visando eliminar regulamentações específicas que, por décadas, estabeleceram condições únicas para cada setor. O INCAA (Instituto Nacional do Cinema e das Artes Audiovisuais) também é afetado, pois o fundo que financia e apoia a indústria audiovisual argentina está sendo extinto.
A reforma também ataca a prioridade que os acordos individuais de cada empresa tinham sobre os acordos setoriais. Atualmente, um sindicato nacional negocia um conjunto mínimo de direitos para todo o setor, mas com a reforma, cada empresa poderá negociar condições inferiores a esse mínimo nacional.
Extrema-direita fez na Argentina e quer fazer o mesmo no Brasil
Argumento de estímulo ao investimento é vinculado à diminuição de garantias históricas dos trabalhadores.
Sergio Palazzo, que defendeu a proposta de Reforma Trabalhista da União pela Pátria na Câmara, questionou por que os 26 títulos e 213 artigos do projeto de lei do governo não melhoravam a vida dos trabalhadores. “Não há uma única disposição que beneficie os trabalhadores, apenas benefícios para os empregadores.”
• Flexibilização das férias.
• Ampliação da jornada diária para até 12 horas.
• Criação do banco de horas, permitindo compensação de horas extras sem pagamento adicional.
• Limitações ao direito de greve e ampliação da lista de serviços considerados essenciais.
• Enfraquecimento da prevalência dos acordos coletivos nacionais diante de negociações por empresa.
• Criação de regime específico para trabalhadores de plataformas digitais como prestadores independentes.
• Revogação da lei de teletrabalho em vigor desde 2021.
Tiros e gás lacrimogêneo em frente ao Congresso
A marcha dos sindicatos militantes terminou com repressão, dezenas de feridos e prisões. O apelo ao apoio à greve contra a reforma trabalhista resultou em uma nova repressão policial, exatamente como a ministra Monteoliva havia ameaçado. O Sindicato dos Metalúrgicos (UOM), trabalhadores do setor oleaginoso, professores e partidos de esquerda se mobilizaram.
“Não há nada de bom neste projeto para o país, para a indústria ou para nós. É apenas uma perda de dignidade”, discursou o líder sindical da UOM.
O Pagina 12 conversou com outros líderes:
Marcelo é representante sindical na fábrica de automóveis Stallantis em Tres de Febrero. “Não tem jeito, isso é uma violação de direitos”, afirma. O salário base de 900 mil pesos geralmente é complementado com horas extras: o sistema de banco de horas reduzirá seus salários. Ele também conta que houve 150 demissões no final do ano e férias antecipadas devido à queda na produção.
Gabriel é representante sindical na fábrica de papel Maxipack em Avellaneda. O clima na fábrica “é complicado”, diz ele. “Eles ficam mudando nossos horários porque não há produção.” O salário base é de 800 mil pesos, mas o acordo da indústria prevê uma redução de 35%, e ele teme que a administração se aproveite da reforma para acabar com as conquistas. “Vamos lutar o máximo que pudermos”, afirma.
Pablo chegou à praça vindo de Rosário. Ele é representante sindical na Molinos Río de la Plata, onde começou a trabalhar em 2008. “Tempos difíceis estão por vir. Milei “é um monstro, a reforma não vai gerar empregos. Isso é uma falácia”.
Os trabalhadores argentinos relembraram um poema de Nicolás Guillén durante o confronto com a polícia:
Não sei por que você pensa isso, soldado.Não sei por que você pensa,
soldado, que eu o odeio,
se somos a mesma coisa,
eu,
você.
Você é pobre, eu também;
eu venho de baixo, você também;
de onde você tirou a ideia,
soldado, de que eu te odeio?
Dói-me que às vezes você
se esqueça de quem eu sou;
droga, eu sou você,
assim como você é eu.
Mas isso não significa que eu
deva detestar você;
se somos a mesma coisa,
você,
não sei por que pensa,
soldado, que eu o odeio.
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