Os deputados federais bolsonaristas Delegado Caveira (PL) e Sargento Fahur (PSD) entram na Câmara armados
N sexta-feira, 3, o deputado federal bolsonarista Delegado Caveira do PL do Pará entrou no Congresso Nacional com um fuzil de calibre 5.56 mm e uma pistola calibre .40. Ao lado do vereador bolsonarista de Belém, Zezinho Lima (PL-PA), Caveira posou para fotos em seu gabinete na Câmara dos Deputados.
O vídeo em que Caveira e Zezinho aparecem armados dentro do gabinete na Câmara dos Deputados foi compartilhado nas redes sociais pelo vereador Zezinho Lima (PL-PA) e Caveira comemorou a repercussão do fato nas redes sociais dizendo: “O homem tá ESTOURADO [sic].Nacionalmente. Doa a quem doer!”.
Em sua conta nas redes sociais, Zezinho Lima celebrou o momento. “Somos armamentistas. Defendemos o porte de arma para o cidadão de bem. Ele, no Congresso Nacional, e eu, na Câmara Municipal de Belém”, escreveu.
Após o caso viralizar, Caveira ainda debochou nas redes sociais, voltando a publicar a imagem em que empunha um fuzil na Câmara: “Doa a quem doer”, escreveu.
Em 2023, o deputado federal bolsonarista Sargento Fahur (PSD-PR) já havia entrado armado no plenário da Câmara, juntamente com dois assessores. No plenário vazio ele pretendia fazer uma live com a pistola, que estava à mostra na cintura, por cima da blusa.
Foi advertido pelos seguranças legislativos que era proibido arma no local. Fahur a tapou com a camisa e simulou um discurso rápido na tribuna, usando seu bordão de campanha: “Para bandido, cacete no lombo e bala no rabo’”.
Em dezembro de 1963 Arnon de Mello, pai do ex-presidente Fernando Collor de Mello, matou o senador acreano José Kairala dentro do plenário do Senado. Arnon disparou vários tiros com seu três-oitão, um Smith Wesson 38, de cano longo e cabo de madrepérola – e disparou várias vezes. Dois projéteis atingiram o senador José Kairala. Nenhum dos tiros atingiu Silvestre Péricles a quem os tiros eram dirigidos.
Kairala foi morto na frente da esposa e dos filhos que assistiam a sessão de despedida de José Kairala que estava ocupando a seção como suplente de José Guiomard dos Santos, o senador titular que tirara licença.
O bang bang no Senado aconteceu porque os dois senadores das Alagoas, Arnon de Mello e Silvestre Péricles, brigavam pelo controle de sua “capitania hereditária”. Péricles também estava armado e jogou-se no chão e rastejou entre as fileiras de poltronas com seu revólver na mão”, segundo reportagem do Jornal do Brasil à época. De acordo com o jornal, José Kairala (PSD-AC) e José Agripino, procuraram conter os “excelentíssimos senhores” de armas em punho. Kairala tinha 39 anos.
O céu à mão armada
Em 1929 o deputado Ildefonso Simões Lopes (RS) matou a tiros o também deputado federal de Pernambuco, Manuel Francisco de Sousa Filho. Manuel Francisco havia ameaçado apunhalar o filho de Ildefonso dentro do plenário porque o filho de Ildefonso Simões Lopes havia dado um golpe de bengala nele ao defender o pai em uma discussão entre os dois.
Em 1967, o deputado Nelson Carneiro matou dentro da Câmara dos Deputados seu colega de parlamento Estácio Gonçalves Souto Maior, pai do piloto Nelson Piquet. Os dois deputados trocaram tiros dentro do plenário da Câmara dos Deputados e Souto Maior acabou morto. O confronto armado aconteceu porque dias antes, Carneiro havia levado um tapa na cara desferido por Souto Maior, durante uma discussão pela presidência da União Parlamentar.
Também na década de 1960, do deputado federal Tenório Cavalcanti puxou a arma para atirar no também deputado federal Antônio Carlos Magalhães, avô de ACM Neto (União). Cavalcanti ocupava a tribuna da Câmara dos Deputados quando fez a ameaça ao colega que estava dentro do plenário. Tenório discursava acusando o então presidente do Banco do Brasil de desvio de verbas quando ACM foi defender o conterrâneo Clemente Mariani dizendo para Cavalcanti: “Vossa Excelência pode dizer isso e mais coisas, mas na verdade o que Vossa Excelência é mesmo, é um protetor do jogo e do lenocínio, porque é um ladrão”. Tenório Cavalcanti, então, sacou o seu revólver e berrou: “Vai morrer agora mesmo, seu safado!”, fazendo com que ACM se urinasse de medo. Mijou nas calças, como se diz popularmente. O que fez com que risse da situação e guardasse a arma dizendo que “só matava homem”.
Após esse acontecimento, Tenório teve o mandato suspenso por quase um ano.
Advogado, jornalista e político, Tenório Cavalcanti era conhecido como o “homem da capa preta”, em referência a capa que usava para esconder a metralhadora da qual nunca se separava. Lurdinha era o nome da submetralhadora MP-40, um modelo utilizado por soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Agressivo e violento, sempre armado e acompanhado de capangas, com fama de mandar matar quem o desfiasse, também era chamado de O Rei da Baixada (fluminense) e Deputado Pistoleiro. Seu estilo lhe rendeu uma aura de mito.
Quem são Fahur e Caveira
Sargento Fahur e Delegado Caveira são dois deputados federais de estilo político violento e agressivo. Em 2023, alimentado pela fake news que espalhou que o governo federal ia retirar as armas dos militares da reserva, declarou: “Eu trabalhei 35 anos na Polícia Militar dando coronhada e tiro na cabeça de vagabundo, e continuei combatendo vagabundo, agora no parlamento. E vou andar desarmado? Flávio Dino, vem buscar minha arma aqui, seu merda”. Segundo o site da Câmara dos Deputados, Fahur tem ensino fundamental “completo”.
Delegado Caveira é integrante da Bancada da Bala no Congresso. Ele é conhecido por defender medidas populistas como a pena de morte. Paradoxalmente, o deputado que levou fuzil para a Câmara, é coautor do PL 4012/ 23, que proíbe que a segurança do presidente Lula (PT), porte armas. Caveira é delegado da Polícia Civil, categoria com permissão para porte, mas sujeita a restrições sobre exibição em locais públicos. Ele iniciou sua carreira como soldado no Exército Brasileiro e, depois, na Polícia Militar do estado (PMGO). Foi só em 2011 que começou sua atuação no Pará, na Polícia Civil.
Medidas
A presença de armas de uso restrito nas dependências do Congresso Nacional sem o devido acautelamento viola o Regimento Interno da Câmara, além de representar risco à segurança institucional. Com base nisso o deputado Rogério Correia (PT-MG), protocolou uma representação na Câmara solicitando busca e apreensão de armas e apuração de infrações administrativas e penais contra Delegado Caveira, que inclui o pedido para que a Corregedoria Parlamentar abra investigação para eventual envio do caso ao Conselho de Ética e ao Ministério Público.
“O ingresso de armas nas dependências da Câmara, especialmente armas de guerra, está condicionado ao acautelamento prévio das armas junto ao Departamento de Polícia Legislativa, nos termos do artigo 2º do Ato da Mesa nº 103/2019, tampouco há notícia autorização excepcional concedida pela autoridade competente”, destacou, na peça, o parlamentar petista.
“Quem entra armado num lugar de palavras revela que seus maiores inimigos são o raciocínio, o diálogo e a paz”, escreveu o petista na representação que acusa o colega de promover um “atentado à ordem e à integridade física de parlamentares, servidores e visitantes”.
A representação foi protocolada na sexta-feira (3).
A atitude do deputado Delegado Caveira gerou críticas até no Pará, estado que ele representa: “A exibição de armamento dentro do Congresso não tem precedentes públicos registrados com esse grau de ostentação”, diz o Jornal O Liberal de Belém -PA.
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