O verdadeiro patriotismo pede passagem com fone de ouvido para evitar o ruído da ignorância

O verdadeiro patriotismo pede passagem com fone de ouvido para evitar o ruído da ignorância

Queremos realmente ter uma democracia ou só a usamos formalmente para encobrir nossa total incapacidade de fugir de nossa natureza de ódio e intolerância?

Através de linchamentos públicos, rasgamos o pacto que os membros da sociedade fizeram entre si para poderem conviver (minimamente) em harmonia. Teoricamente, em algum momento da história humana, abrimos mão de resolver as coisas por conta própria para impedir que nos devoremos. O sistema que criamos para isso não é perfeito, longe disso, mas é o que tem para hoje. Seria bom, portanto, que começássemos a respeita-lo.

Quando um indivíduo ou um grupo parte para o linchamento de uma pessoa, usa, não raro, o discurso de que está fazendo Justiça, baseado em um entendimento do que é certo, do que é errado e do que é inaceitável. Ao final do dia, ficam felizes quando postam a informação em suas redes sociais, sentindo-se heróis. Quando, na verdade, agem como milicianos fazendo justiça com as próprias mãos.

O título inspirado no artigo de Leonardo Sakamoto “Você não é patriota por berrar com alguém em um avião, apenas otário”, e a reprodução dos dois parágrafos acima constituem mais que uma reflexão, um chamado para o respeito às regras de educação que possibilitam a convivência humana. Em uma palavra: civilidade.

O ser humano necessita socializar, conviver. Mas para que isso seja possível é necessário respeitar as diferenças e os limites do bom senso.

“A nossa compreensão de que somos todos diferentes ajudar-nos-á a consegui-lo (uma boa convivência), pois a convivência não se dá jamais entre iguais, mas entre desiguais que têm muito que partilhar, quer dizer, que têm elementos de interesse mútuo.”,  ensinava Jorge Ángel Livraga,  escritor, poeta, ensaísta, educador e filósofo argentino, fundador e diretor da Nova Acrópole, uma organização cultural internacional de educação filosófica.

Sem isso não passamos de brutos ignorantes autodestrutivos.

Em seu artigo, Sakamoto reflete sobre essas questões com foco no episódio em que o ministro Flávio Dino (STF), foi agredido verbalmente dentro de um avião por enfermeira paranaense apoiadora de Jair Bolsonaro (PL).

“Você que acredita estar sendo um patriota e apenas demonstrando sua indignação e exercendo sua cidadania ao atacar alguém dentro de um avião, sinto informar, mas o seu comportamento é, na verdade, de um otário ou otária. Você não está defendendo o país, apenas reproduzindo, de forma mimética e pouco criativa, o roteiro de ódio que modela diariamente as redes sociais. Gritar contra alguém dentro de uma aeronave, onde as pessoas estão confinadas e impossibilitadas de se afastar, não é exercício de liberdade de expressão, é covardia.

A ignorância, vale lembrar, é apartidária. Por exemplo, em junho de 2017, a jornalista Miriam Leitão foi vítima de gritos, xingamentos, ameaças e palavras de ordem contra ela durante o voo Brasília – Rio vindo de pessoas à esquerda. Ela, que foi torturada por lutar contra a ditadura militar, também ouviu gritos de “terrorista” de militantes que se diziam democratas.

Gritar em um avião não torna ninguém mais brasileiro. Apenas mais bizarro. E, no contexto de um país que tenta se reconciliar com a normalidade democrática após ter sido levado à beira do abismo, atos como esse são profundamente antipatrióticos.

Enquanto o Supremo julga um acusado de tentar destruir a democracia, seus apoiadores, em terra, continuam a demonstrar profundo desprezo pelas regras mais básicas de convivência que mantêm uma sociedade minimamente civilizada de pé.

Neste momento, o verdadeiro patriotismo pede passagem. E, de preferência, um fone de ouvido com cancelamento de ruído para ignorar esse barulho ensurdecedor da ignorância”.

 

Veja também

Governo inicia construção da 6ª ponte de Rio Branco

Governo inicia construção da 6ª ponte de Rio Branco

O governo do Acre, por meio do Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e …