Defender o jornalismo exige separar profissionais de farsantes

Defender o jornalismo exige separar profissionais de farsantes

Acho saudável o debate levantado pelos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para exercício da profissão. Interditar o debate sobre critérios para garantir as prerrogativas constitucionais de nossa profissão, evitando que elas sejam usadas para o cometimento de crimes, é não compreender a própria essência do jornalismo, pilar da democracia.

Em síntese: discordo que o diploma seja a única porta de entrada para o exercício da profissão, mas defendo que um caminho possível seja a criação de uma estrutura na sociedade civil, como um conselho ou ordem, sem a ingerência de governos e empresas, para evitar que comportamento antiético seja chancelado usando as prerrogativas do jornalismo. Diploma sozinho não cria jornalista, mas autodeclaração muito menos.

Sou professor de jornalismo há 26 anos e defendo a importância da faculdade como espaço de discussão e reflexão sobre os métodos e princípios da profissão, principalmente como espaço para debate sobre a ética jornalística. Faculdades, pelo menos aquelas que não são caça-níqueis, precisam ser locais para analisar os erros do jornalismo e, a partir daí, melhorar a profissão. Coisa que nem sempre acontece nas redações.

Mas daí a exigir diploma como condição única para o exercício profissional, há uma distância. Sim, você pode defender a faculdade, mas não a sua obrigatoriedade. Publicidade, por exemplo, tem curso superior e é bastante concorrido, mas não exige diploma para o exercício da profissão. “Ah, mas a publicidade que desrespeita a ética não causa o mal que o jornalismo antiético causa.” Não?

Encontrei no interior do Brasil ao longo dos anos muitos jornalistas sem diploma tocando rádios comunitárias com muito mais competência do que diplomados instalados confortavelmente em redações refrigeradas das grandes cidades. E há grandes jornalistas que não se formaram na faculdade de jornalismo, de Bernardo Kucinski a Juca Kfouri. De novo: a faculdade é uma porta de entrada, mas não deve ser a única. E tampouco o exercício de profissão deve ser confinado a quem tem qualquer diploma universitário, o que seria elitista.

Mas também sou contra conceder as prerrogativas do jornalismo por autodeclaração ou mediante a apresentacão de um pacote de textos que produziu em algum lugar. Não é porque alguém se declara jornalista e apresenta meia dúzia de textos que automaticamente deveria ser tratado como tal.

Ouvir o outro lado sempre e ter multiplicidade de fontes, por exemplo, demanda ética e estética próprias. Isso pode não afetar o trabalho de quem produz opinião (apesar de opinião também demandar responsabilidade), mas o daqueles que relatam notícias e reportagens.

O estudo e a reflexão sobre a profissão mostram que não é apenas a prática que transforma alguém em jornalista, mas o exercício cotidiano da ética. Não é a capacidade de manejar técnicas aprendidas em algumas semanas nos cursos de trainee que nos define, mas o compromisso com um conjunto de regras, direitos e deveres aprendidos a partir da análise de casos e da vivência.

Aliás, é justamente a capacidade de entender a realidade, do ponto de vista de princípios e consequências, que garante que a inteligência artificial não nos substituirá tão cedo na produção de informação, o coração da profissão.

Portanto, separar quem é jornalista de quem apenas diz que é (e, consequentemente, definir quem possui as prerrogativas da profissão) não é uma tarefa simples. Muito já se discutiu sobre isso. Muitas propostas foram apresentadas, como a criação de um Conselho Federal de Jornalismo, que garanta o registro e zele pela ética — sem relação alguma com o Estado, claro.

Os debates foram bombardeados e sofreram pressão de empresas que não queriam ter que responder por seus atos. Ou não desejam ver a organização de jornalistas, que teria consequências trabalhistas, inclusive.

E o desafio permanece: como proteger as prerrogativas democráticas do jornalismo sem oferecer um escudo a bandidos que se apresentam como jornalistas?

O corporativismo jornalístico, por um lado, é um instrumento poderoso de defesa da nossa atividade. Somos naturalmente reativos diante da percepção de ataques porque apanhamos demais do poder político e econômico – praticamente todo jornalista tem uma história de censura ou assédio judicial para contar.

E, não raro, dos próprios patrões, seja pelo abandono, seja pela exploração trabalhista. Sim, quem ganha bem na profissão é minoria. O piso é baixo e, para muita gente, o teto também.

Mas corporativismo não pode produzir um biombo para quem se esconde atrás da profissão a fim de cometer crimes. Separar caso a caso é difícil, mas é fundamental.

O debate levantado pelos ministros não é simples, mas cabe perfeitamente na democracia. Precisamos ter coragem de levá-lo adiante. O que não cabe é violência ou ataque contra jornalistas.

Por causa do que escrevi, já fui perseguido e espancado, terminando mais de uma vez sangrando na rua. Já vivi de tudo: de multinacional que pagou anúncios anônimos para me difamar a jornal mercenário que publicou entrevista falsa, comigo colocando minha vida em risco. Em 2016, eu apanhava (literalmente) por questionar a aura ética construída em torno da Lava Jato. O tempo passou, mas a autocrítica não veio.

Defender o vácuo sob a justificativa de liberdade é tocar violino enquanto o Titanic afunda. Se o jornalismo não criar critérios democráticos, transparentes e independentes para reconhecer quem assume seus direitos e deveres, qualquer criminoso continuará podendo vestir um crachá imaginário e exigir imunidade.

Liberdade de imprensa não é salvo-conduto para delinquir. E quem confunde regulação ética com censura pode acabar ajudando a destruir justamente a liberdade que afirma proteger.

Por Leonardo Sakamoto

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