Preso na Bolívia acusado de ser o mandante da tentativa de assassinado da ex, a advogada Nádia Beller, Fernando Cerimedo, amigo íntimo de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), tem como sócio Damián Merlo, um dos principais articuladores do lobby de políticos da ultradireita latina americana junto ao governo Donald Trump e intermediador de agentes da Casa Branca em campanhas presidenciais na região, como a de Nayib Bukele em El Salvador, de Javier Milei na Argentina e, ao que tudo indica, a que pretende colocar Flávio Bolsonaro (PL) na Presidência da República no Brasil.
Merlo aparece em documentos do Departamento de Justiça dos Estados Unidos como responsável pela Latin America Advisory Group (LAAG), empresa registrada sob o Foreign Agents Registration Act (FARA), uma lei dos EUA criada em 1938 que exige o registro público de pessoas e empresas que fazem lobby ou propaganda no país a mando de governos ou entidades de fora. Ou seja, o sócio de Milei é lobista de governos latino-americanos junto à Casa Branca e ao Congresso dos EUA.
Amigo do clã Bolsonaro e pivô do vídeo contestando as urnas eletrônicas no Brasil em dezembro de 2022, em meio à tentativa de golpe de Jair Bolsonaro (PL), Cerimedo registrou, em maio de 2024, a sua empresa Numen Advisors LLC em Biscayne Boulevard, em Miami.
Segundo informações divulgadas pelo jornal mexicano La Jornada nestas segunda-feira (24), um documento submetido ao Departamento de Justiça dos EUA datado de 4 de setembro de 2023, é endereçado a “Fernando Cerimedo, CEO da Numen” e assinado por Damián Merlo, sócio da LAAG, documenta a assinatura de um contrato de colaboração com a campanha de Javier Milei até 10 de dezembro daquele ano.
O documento previa atuação sobre a imprensa americana, preparação de artigos de opinião, contatos com integrantes da Câmara e do Senado dos EUA, aproximação com comissões de relações exteriores do Congresso e articulação com importantes think tanks de Washington, entre eles Heritage Foundation, CSIS, Council on Foreign Relations e Atlantic Council. Também previa auxílio na organização de uma visita de Milei a Washington.
Ainda de acordo com o jornal mexicana, foi Merlo quem transmitiu a Cerimedo o pedido de entrevista do programa de Tucker Carlson a Milei. Cerimedo teria respondido imediatamente que cuidaria da operação. A entrevista acabou dando enorme projeção internacional ao então candidato argentino.
Expoente da ultradireita dos EUA, Carlson esteve no Brasil em junho de 2022, às vésperas do início da campanha presidencial para uma entrevista exclusiva com Jair Bolsonaro no Palácio da Alvorada. À época, ventilou-se que a intermediação havia sido feita pelo filho Eduardo Bolsonaro.
De Bukele ao MAGA
O nome de Merlo ganhou ainda mais relevância com a ascensão de Nayib Bukele, ícone da ultradireita, em El Salvador. Documentos do governo salvadorenho registrados no FARA mostram que a Latin America Advisory Group, de Merlo, prestou serviços de assessoria de assuntos governamentais à Presidência de El Salvador. Um contrato de extensão referente a 2022 estabeleceu pagamentos de até US$ 390 mil, em seis parcelas de US$ 65 mil. O documento é assinado por Merlo e pela Presidência salvadorenha.
A relação com Bukele é descrita também pela revista The New Yorker. Em reportagem publicada no último dia 18 de agosto, o jornalista Daniel Castro identifica Merlo como um lobista argentino-americano que trabalha para figuras políticas latino-americanas de direita e que atuou como assessor de política externa de Bukele. Segundo o próprio Merlo, ele conheceu o salvadorenho quando ainda era prefeito de San Salvador e trabalhou com ele desde a campanha presidencial de 2019.
Merlo diz ter ajudado a organizar entrevistas de Bukele, inclusive uma conversa com o mesmo Tucker Carlson em 2024, que ultrapassou 7 milhões de visualizações no YouTube. Ele também afirma ter passado a noite com Bukele preparando seu discurso para a Assembleia Geral da ONU de 2019, ocasião em que o presidente salvadorenho fez a famosa selfie no púlpito. Segundo Merlo, o próprio Bukele dirigia pessoalmente boa parte da produção de seu conteúdo.
O modelo de Bukele e Flávio Bolsonaro
O New Yorker coloca a visita de Flávio Bolsonaro ao CECOT, a gigantesca prisão construída por Bukele, dentro de um movimento maior de exportação do modelo salvadorenho para a direita latino-americana.
A reportagem afirma que o presídio e a militarização da segurança pública em El Salvador deixaram de ser apenas instrumentos de propaganda de Bukele e passaram a funcionar como um “playbook” eleitoral. Flávio Bolsonaro aparece entre os políticos que adotaram essa estratégia e, segundo o texto, fez uma peregrinação ao CECOT em 2025.
A conexão é relevante porque o próprio Merlo é apresentado pelo New Yorker como um dos operadores da projeção internacional de Bukele e da aproximação do presidente salvadorenho com o MAGA e a Casa Branca.
A mensagem a Vorcaro e a visita a El Salvador
A estratégia do lobista Damián Merlo em vender o modelo de segurança de Bukele como playbook para candidatos da ultradireita na América Latina, cruzou o destino de Flávio Bolsonaro justamente quando ele planejava, juntamente com Eduardo Bolsonaro, uma viagem a El Salvador para tirar fotos na Cecot.
Após áudio no dia 8 de setembro de 2025 cobrando Daniel Vorcaro sobre o restante dos 24 milhões ao clã, supostamente para financiar o filme Dark Horse, Flávio Bolsonaro enviou mensagem ao dono do Banco Master com nova cobrança em 16 de novembro, um dia antes do banqueiro ser preso pela Polícia Federal (PF) no aeroporto de Guarulhos.
“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, escreveu Flávio, segundo informações divulgadas pelo site The Intercept.
Um dia depois, Flávio e Eduardo Bolsonaro estavam em El Salvador, onde tiraram fotos em frente às megaprisões de Bukele.
Após o retorno de El Salvador, Flávio esteve por três vezes em São Paulo. No dia 4 de dezembro, visitou Vorcaro, com o banqueiro de tornozeleira eletrônica, na mansão nos Jardins.
Um dia depois, em 5 de dezembro, após visita ao pai na cela da Superintendência da Polícia Federal em Brasília, Flávio anunciou que seria o candidato do clã à Presidência da República.
O modelo da nova direita
A reportagem da New Yorker ajuda a entender por que a investigação da Polícia Federal sobre os milhões de dólares de Vorcaro ao clã Bolsonaro é relevante. A revista mostra como o modelo político de Bukele — segurança extrema, estética autoritária, comunicação digital agressiva e produção incessante de conteúdo — passou a funcionar como uma espécie de manual para outras campanhas da direita latino-americana. E o Brasil está nesse mapa.
O New Yorker cita explicitamente Flávio Bolsonaro como um dos políticos que adotaram elementos do modelo Bukele. O senador chegou a visitar o CECOT, a megapenitenciária salvadorenha que se tornou uma das principais peças de propaganda do presidente de El Salvador.
A revista também mostra que o sucesso de Bukele não se resume à política de segurança. Sua força está na capacidade de transformar política em conteúdo viral — prisões, militares, vídeos, memes, estética e redes sociais funcionando como uma máquina permanente de propaganda. Algo que custa caro
E quem aparece como um dos operadores dessa engrenagem? Damián Merlo.
O mesmo lobista que trabalhou para aproximar Milei de Washington. O mesmo que assinou contrato com a empresa de Fernando Cerimedo. O mesmo que circula no ambiente político de Trump. Com informações da Fórum
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