Se perder, não saio
A imprensa internacional repercutiu o depoimento de Jair Bolsonaro (PL) no Supremo Tribunal Federal (STF), nesta terça-feira (11), no processo em que ele é acusado de tentar dar um golpe de Estado.
Veículos estrangeiros ressaltaram que esta é a primeira vez que um ex-presidente brasileiro é julgado por conspiração para permanecer no poder após a derrota eleitoral. O caso chamou atenção por envolver lideranças militares e um plano para impedir a posse do presidente Lula (PT).
O jornal britânico The Guardian destacou a fala de Bolsonaro no depoimento, quando afirmou que não planejou um golpe, mas que discutiu “caminhos alternativos” para seguir como presidente.
Jair Bolsonaro chegou a pedir desculpas ao ministro Alexandre de Moraes e a outros dois magistrados por declarações anteriores sobre supostos subornos, citadas em uma gravação usada como prova no processo.
O La Nacion, por sua vez, informou que o ex-presidente brasileiro negou a existência de um plano de ruptura democrática, mas confirmou ter conversado com integrantes das Forças Armadas sobre medidas legais relacionadas ao resultado das eleições de 2022.
A rádio americana NPR classificou o julgamento como “histórico” e lembrou que Bolsonaro pode enfrentar uma longa pena de prisão. O espanhol El País afirmou que o ex-presidente “se converte em réu por liderar uma tentativa de golpe contra Lula”, enfatizando sua fala ao ministro Moraes de que “não há levante sem líder, Forças Armadas ou apoio popular”.
Repercussão no Brasil
O depoimento de Jair Bolsonaro nesta terça-feira (10), gerou forte repercussão nas redes sociais e dominou as discussões no X (antigo Twitter). Segundo levantamento da consultoria Arquimedes, encomendado por O Globo, 65% das menções ao ex-presidente tiveram teor negativo, apesar da tentativa de seus apoiadores em sustentar a narrativa de “perseguição”.
No total, foram registradas aproximadamente 350 mil menções a Bolsonaro, um número expressivamente superior às 250 mil publicações sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no mesmo período. Do volume de interações envolvendo Bolsonaro, apenas 14% foram positivas, enquanto o restante se manteve em tom neutro, com destaque para memes e trechos viralizados de sua oitiva no STF.
Segundo o Brasil 247, a ironia foi o tom dominante nas redes. Um dos momentos mais compartilhados ocorreu quando Bolsonaro, durante o depoimento, recuou de acusações feitas anteriormente contra ministros do Supremo e pediu desculpas. “Não tenho indício nenhum, senhor ministro. Era uma reunião para não ser gravada, foi um desabafo, uma retórica que usei. Então, me desculpe. Não tive intenção de acusar de desvio de conduta os três ministros”, afirmou o ex-presidente.
A fala fez referência a uma reunião ministerial de julho de 2022, quando Bolsonaro sugeriu que os ministros Alexandre de Moraes, Edson Fachin e Luís Roberto Barroso teriam recebido propina para favorecer a segurança das urnas eletrônicas e fraudar as eleições. No depoimento desta terça, contudo, ele negou possuir qualquer prova dessas acusações.
Para o pesquisador Pedro Bruzzi, da consultoria Arquimedes, o comportamento adotado por Bolsonaro durante o depoimento acabou desmobilizando parte de sua base mais fiel. Segundo ele, ao recuar em declarações anteriores e classificar de “malucos” os envolvidos nos atos de 8 de janeiro, o ex-presidente dificultou a defesa de seus apoiadores. “A maioria das manifestações foi negativa porque ele dificultou a vida de quem estava disposto a defendê-lo. Embora tenha reiterado sua defesa do voto impresso, voltou atrás em algumas declarações e acabou expondo seus apoiadores, que agora têm mais dificuldade em sustentá-lo. Imagine uma senhora que pediu o AI-5 em Copacabana vendo isso”, avaliou Bruzzi.
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