Os mafiosos sem rosto dos arcabouços da Faria Lima

Os mafiosos sem rosto dos arcabouços da Faria Lima

Os homens que trabalham para o PCC no mercado financeiro não têm cara nem nome

A Operação Carbono Oculto completa um ano agora, dia 28, sem que tenha um rosto e um nome que a identifique. Falta um rosto com a tatuagem do PCC na testa, para que não restem dúvidas de que o mercado financeiro da Faria Lima é cúmplice não só dos garimpeiros que destroem terras indígenas, mas também do crime urbano organizado.

Um rosto que, de tanto ser observado, se transforme no que a Faria Lima representa como sabotagem ao país, e não só ao governo Lula. Mas, nesse caso, esse rosto criminoso não existe. Não existe um nome. Em um ano, não há uma figura que nos contemple com a demanda de que todo o escândalo precisa de um bandido que o identifique.

Não existem rostos e nomes porque a grande imprensa escondeu os desdobramentos das investigações. O ministro Fernando Haddad repete que aquela foi a maior operação contra o crime organizado na área financeira. E por isso mesmo, por ser a maior e a mais efetiva, não rende manchetes.

Os jornalões estão ocupados com outras investigações bem carimbadas. Inventaram o apelido Lulinha para o filho de Lula. O assessor de Lula que recebeu empréstimo de uma lobista é Marcola. E a cobertura fala em tráfico de influência e cita Marcola como se citasse o grande chefe do crime organizado. Temos a exposição de Lulinha, e ainda há um Marcola, que seria um traficante de influências.

Mas os investigados da Faria Lima, esses não têm um retrato. Não há nem mesmo um Cara de Cavalo na Faria Lima. Ninguém ficou famoso na Carbono Oculto por ser a face da estrutura que o PCC montou na Faria Lima. Ninguém sabe de cor o nome de uma, apenas uma, das mais de 40 fintechs flagradas prestando serviços ao crime organizado.

A Operação Carbono Oculto ficou tão oculta na grande imprensa que seu primeiro aniversário não tem relevância alguma para o brasileiro. Mesmo que as investigações estejam avançando e que o desfecho dos inquéritos conduza a figuras ilustres do mundo financeiro, a maioria não sabe nada da Carbono Oculto.

Os bandidos aliados ao PCC na Faria Lima não conseguem virar celebridades com o calibre de um Daniel Vorcaro, porque foram escondidos pelos jornalões. A conexão da bandidagem organizada com a Faria Lima envolve lavagem de dinheiro, sonegação e fraudes no setor de combustíveis. Entre 2020 e 2024, a estrutura mafiosa teria movimentado mais de R$ 50 bilhões.

Enquanto lavavam dinheiro, cobravam rigor do governo no cumprimento do arcabouço fiscal. Continuam, como farsa, cobrando déficit zero, porque só assim os juros poderiam cair. Mas não continuam, como faziam até um ano atrás, produzindo manchetes nos jornalões com chamadas em que apareça a grife Faria Lima.

As chamadas de capa em que o nome Faria Lima aparecia no começo de qualquer frase, na base de “Faria Lima exige isso e aquilo” ou “Faria Lima prevê o fim do governo para 2026”, não existem mais. Faria Lima virou quase um nome maldito, e por isso os jornalões voltaram a se referir apenas ao mercado.

É o mercado, e raramente a Faria Lima, que se reúne com Flávio Bolsonaro e aplaude encontros com Renan Santos. O grande mercado tenta transmitir que seus interesses não são os mesmos das fintechs primas pobres e prostituídas, e voltou a falar de grave desequilíbrio fiscal e de ameaça de calote.

Mas está seguro de que ninguém do meio vai aparecer em manchetes por envolvimento com o PCC. Não teremos os retratos de altos executivos suspeitos de siglas como BK Bank, Ceopag, Ceopar, Fundopay, XBR, America Payment, Sispay, Vpay, May Servex, Smart Solutions, Smart Safe, Reag, Yaw e Ello com chefões do tráfico.

Há dois meses, um desdobramento da Carbono Oculto, batizado de Fluxo Oculto, identificou fintechs que operavam na Faria Lima em substituição às que haviam sido flagradas em agosto do ano passado. Continuavam fazendo o que era feito pelas que deixaram de operar com o PCC.

Os jornalões deram manchetes semelhantes: “Nova operação do Ministério Público e da Receita Federal mira seis fintechs”. Não há nas reportagens os nomes das fintechs, nem dos seus donos ou executivos.

Os bandidos da Faria Lima continuam sem cara e sem identidade. E não há, na vida real e na ficção do cinema e da literatura, mafiosos sem rosto.

Por Moisés Mendes

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